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Testemunhos da literatura angolana na luta de libertação nacional de Angola

Jornal OPaíspor Jornal OPaís
30 de Janeiro, 2026
Em Opinião
Testemunhos da literatura angolana na luta de libertação nacional de Angola

Na verdade, com base no título “testemunhos da literatura angolana na luta de libertação nacional de Angola”, nos é permitido inferir que, para nossa conversa de hoje, poderemos concordar com o pensamento de Rita Chaves no qual, “a literatura angolana escrita surge assim não como simples necessidade estética, mas como arma de combate pela afirmação do homem angolano”.

Por certo, a literatura angolana esteve, de facto, sempre em primeira linha de combate pela libertação e pela dignificação do homem angolano. A este pensamento, basta-nos recordar que os primeiros contatos entre os europeus e africanos são datados de 1482 e a ocupação efetiva de Angola teve início em 1884, isto é, na histórica conferência de Berlim. Estes acontecimentos despoletaram o nascimento do nacionalismo.

Assim, o nacionalismo angolano tem as suas origens mais profundas nas lutas entre o povo angolano e o colonizador europeu, lutas estas que vêm desde o século XVI e, por sua vez, transformaram-se e desenvolveram-se noutros campos como o político e literário.

Indubitavelmente, a literatura angolana é, simbolicamente, o testemunho ou sujeito da luta de libertação nacional. Prova disto, em termos de periodização da literatura angolana, na perspectiva do professor doutor Carlos Gonga Pascoal, cronologicamente estabelecem-se seis períodos, desde as origens, o ano de 1848 até 1980 em diante. Entretanto, dos seis períodos, como forma de recorte na nossa abordagem, cingir-nos-emos apenas ao quinto período que, na visão do autor já citado, tem como marco cronológico os anos de 1961 a 1971.

Em termos literários, é marcado por uma literatura enraizadamente nacionalista, com destaque para escritores como Cordeiro da Mata “Delírios”, António Assis Júnior “Segredo da Morta” e José Fontes Pereira “Scenas de África”. Entretanto, o nacionalismo é entendido, na esteira de Isaiah Berlin, como reação face a uma atitude protetora ou injuriosa em relação aos valores tradicionais de uma sociedade […].

Com efeito, vale enfatizar que a literatura angolana é, na sua essência, oral, ou seja, ágrafa. Em Angola, a imprensa foi introduzida apenas em 1845. Assim, ela surge como o primeiro espaço de intervenção através da escrita, que os angola- nos encontraram para denunciar o colonialismo português.

Nes- te ínterim, nos jornais como “Futuro de Angola”, “Pharol do Povo”, “Arauto Africano” e Revista Mensagem, são revelados nessa época claros sinais de descontentamento com a situação econômica e social da colônia de Angola através de várias denúncias de corrupção e de abusos das autoridades coloniais, trazendo à ribalta questões intrínsecas ao nacionalismo.

Deste modo, a luta de libertação nacional é um longo processo que pode ser sintetizado em três fases, acolhendo ao pensamento de Fanon: primeira fase, a de assimilação, o intelectual colonizado assimila e mostra provas da assimilação da cultura do colonizador, uma vez que a sua escrita corresponde aos padrões literários deste espaço dominante.

Na segunda fase, a de protesto, o intelectual assimilado questiona a sua identidade, “ele decide lembrar quem é”, sente-se perturbado, distante do seu povo, tenta resgatar a identidade perdida – no contexto do desenvolvimento literário angolano, a palavra de ordem “Vamos Descobrir Angola 1948” é exemplar desta fase. Podemos afirmar que esta é uma das fases mais produtivas e marca o início da moderna literatura angolana, na perspectiva de estudiosos como Salvato Trigo, Carlos Conga Pascoal e Luís Kandjimbo.

Esta fase é repleta de obras de autores como: Agostinho Neto “Sagrada Esperança”, António Jacinto “Cartas de Um Contratado e Mo- nangamba”, Luandino Vieira “A vida verdadeira de Domingos Xavier”, entre outros. Por outro lado, esta fase sedimentou as bases para o surgimento de verdadeiros mo- vimentos políticos.

A terceira e última fase, a da Revolta, que Fanon entendeu como a “fase da luta”, cuja literatura designou como sendo de “combate”, constitui a fase da ação, em que o intelectual age. Pelo que, a literatura angolana pode-se dizer, surge da reivindicação que, em cada momento histórico, toma contor- nos diferentes.

Portanto, a literatura angolana é o testemunho da luta de libertação nacional de angola e os escritores angolanos, pelos seus conteúdos nativista e intervencionista, revelam-se como testemunhas da história de Angola, que buscam conciliar a herança colonial com a identidade africana/angolana au- têntica. Escritor, Professor, Licenciado no Ensino da Língua Portuguesa pelo ISCED-Huambo e Membro da Brigada Jovem de Literatura-Huambo.

POR: JOÃO BAPTISTA CUNHA

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