Imaginemos um relatório que atravessa vários gabinetes antes de chegar à mesa de quem de cide. Na primeira ver são, lê-se «problema grave». Na segunda, «dificuldade operacional». Mais acima, a expressão transforma-se em «situação sob acompanhamento». Quando chega ao destino, o problema parece controlado.
Ninguém precisou de inventar um resultado. Bastou que, em cada passagem, alguém retiras se uma parte do incómodo. O exemplo é ilustrativo, mas coloca uma questão concreta: quanto da realidade consegue uma instituição fazer chegar a quem tem autoridade para agir? Costumamos avaliar a liderança pela qualidade das decisões.
Precisamos também de observar a qualidade da informação que as antecede. Uma decisão pode parecer coerente à luz do relatório recebido e revelar-se desastrosa perante aquilo que o rela tório deixou de dizer.
É neste intervalo que a competência de quem nos contraria ganha importância. Quem conduz conhece o ângulo morto: uma parte da estrada que escapa ao campo de visão. A experiência ajuda a gerir esse ris co, mas não o elimina. Nas instituições, o poder também tem ângulos mortos.
Quanto mais distante estiver da execução e das consequências das suas es colhas, mais depende de outras pessoas para compreender o que se passa. O problema começa quando es sas pessoas percebem que apre sentar uma dificuldade pode prejudicá-las mais do que dei xá-la crescer. A comunicação adapta-se. Um técnico suaviza a conclusão.
Um responsável adia a má notícia. Uma equipa aprende a destacar os indicadores favoráveis e a remeter os restantes para segundo plano. Quem dirige recebe informação progressivamente filtrada e pode interpretar a ausência de objecções como sinal de que tudo está a funcionar.
Este mecanismo dispensa uma ordem expressa para silenciar alguém. Uma reacção humi lhante numa reunião, a desva lorização repetida de parece res ou a associação entre dúvi da e deslealdade podem ensinar o comportamento esperado.
As pessoas continuam presentes, mantêm as suas qualificações e cumprem as rotinas. Entretanto, uma parte do seu conhecimento deixa de estar ao serviço da instituição.
Por: EDGAR LEANDRO







