O abraço entre os generais Armando da Cruz Neto, enquanto chefe do Estado-Maior das Forças Armadas Angolanas, e de Abreu Muengo Uchatchitembu ‘Kamorteiro’, em Abril de 2002 no Palácio dos Congressos, em Luanda, continuará a ser um dos momentos mais icónicos da história contemporânea angolana.
Foi através deste aperto de mãos que se selou verdadeiramente o fim do conflito angolano, iniciado ainda antes da independência, tendo-se arrastado por mais de cinco décadas, com consequências imprevisíveis, muitas das quais as marcas ainda continuam presentes.
O encontro consta de um dos retratos que hoje integra o Memorial às Vítimas dos Conflitos Políticos, inaugurado pelo Presidente João Lourenço, na Nova Marginal, em Luanda. E outros, como as imagens dos líderes dos três movimentos, António Agostinho Neto (MPLA), Holden Roberto (FNLA) e Jonas Savimbi (UNITA).
Desde os primórdios, por razões várias, os angolanos mergulharam numa série de conflitos cujas consequências ainda se fazem sentir. Algumas entre forças beligerantes ligadas aos então movimentos políticos, que inicialmente aspiravam à independência, depois entre integrantes dos próprios partidos políticos por razões internas, e, no final, entre as forças armadas de um Estado e uma organização que acabou por ser considerada como sendo ‘terrorista’.
A partir dos primeiros acordos de paz, surgiu a urgência da adopção de iniciativas que levassem verdadeiramente a uma reconciliação entre as várias partes. O perdão não poderia ser só um pregão, às escuras, quando no seio de muitos as feridas teimavam em não cicatrizar. A evocação do perdão e a necessidade de um abraço ainda continuam a ser actos em que os angolanos se conseguem rever, não obstante as cores, as facções a que muitos aderiram ou os eventos que levem a exigir reparação.
É normal que, passados vários anos, fruto das desavenças, ainda exista quem pretenda que se responsabilize alguns pelos massacres que existiram, como os do 27 de Maio, as fogueiras na Jamba e outros crimes políticos ocorridos ao longo da Angola independente.
Mas, muito mais do que se pretender empurrar determinadas figuras às boxes, há, sim, a necessidade de se perdoar – e abraçar, se necessário, conforme espelha a estrutura ora inaugurada. Como frisou o Presidente João Lourenço, no livro de honra: ‘hoje transformamos a dor em cura e o passado em história, no qual honramos a memória dos nossos compatriotas que pereceram em momentos e circunstâncias complexas. Neste Monumento selamos o compromisso vivo de que todos importam e que tudo faremos para que a nossa história seja conhecida e compartilhada”.
E prosseguiu o estadista: “Essa história que registamos neste lugar e com este Monumento servirá para que as gerações vindouras compreendam as várias nuances da nossa história e não permitam que o passado se apague, nem que os erros se repitam”. “Hoje encerramos um capítulo da nossa história e, com ele, solidificamos o princípio que nos norteia. Um só Povo. Uma só Nação”, rematou.







