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OPAÍS

E agora, FIFA?

Jornal OPaíspor Jornal OPaís
3 de Março, 2026
Em Opinião
E agora, FIFA?

Em 2022, quando a Rússia invadiu a Ucrânia, o mundo do futebol reagiu com uma rapidez rara. A FIFA, pressionada por federações, patrocinadores e opinião pública, decidiu suspender as selecções e clubes russos de todas as competições internacionais. A UEFA seguiu o mesmo caminho. Foi uma decisão apresentada como moral, firme, inabalável, o órgão reitor não podia ficar indiferente perante a guerra.

Na altura, muitos aplaudiram. Outros questionaram. O argumento central era simples: o desporto não vive numa bolha. Quando um Estado viola o direito internacional, não pode continuar a desfilar bandeiras e hinos como se nada fosse. O futebol, dizia-se, tem responsabilidade social. Tem valores. Tem princípios.

Mas o que acontece quando os protagonistas mudam? Na madrugada de sábado, Israel e os Estados Unidos da América e o Irão envolveram-se num novo episódio militar, justificado com o velho argumento das armas nucleares, o mesmo pretexto que, no passado, sustentou a invasão do Iraque e a queda de Saddam Hussein. A história repete-se, com outros rostos, com as mesmas sombras.

E é aqui que a pergunta se impõe, inevitável: e agora, FIFA? Se a coerência é um valor, onde está ela? Se a suspensão da Rússia foi um acto de defesa dos princípios, que resposta haverá quando as potências envolvidas são aliados estratégicos, parceiros comerciais, gigantes do mercado televisivo? Haverá a mesma firmeza? Haverá a mesma prontidão? Ou os princípios adaptamse consoante o peso económico e político de cada bandeira? O presidente Gianni Infantino tem falado, ao longo dos anos, de união, inclusão e universalidade.

O futebol como ponte entre povos. O futebol como linguagem comum. Mas quando o mundo arde, essa linguagem torna-se selectiva. Uns são punidos exemplarmente. Outros beneficiam do silêncio conveniente. E o silêncio, neste caso, é ensurdecedor. A FIFA gosta de se apresentar como neutra. Contudo, a neutralidade raramente é inocente. Ao escolher agir num caso e hesitar noutro, o organismo máximo do futebol mundial deixa de ser árbitro imparcial para se tornar actor político, ainda que finja não o ser. Não se trata de defender este ou aquele país.

Trata-se de exigir coerência. Se o critério é a violação do direito do tratado internacional, então que seja universal. Se o critério é a agressão militar, então que não dependa do PIB ou da influência diplomática. O futebol mobiliza milhões. Move paixões, economias, identidades. Uma suspensão internacional não é apenas simbólica; é um gesto com impacto real. Retira visibilidade, receita, prestígio.

Ao aplicá-la de forma selectiva, a FIFA arrisca-se a transformar a justiça desportiva numa ferramenta de conveniência geopolítica. E o mais inquietante é que esta dualidade corrói a credibilidade da própria instituição. Porque cada decisão desigual alimenta a ideia de que os valores proclamados são, afinal, slogans. Que a ética é negociável.

Que o discurso muda consoante o interlocutor. E agora, FIFA? Vai manter a linha dura que adoptou em 2022? Vai aplicar o mesmo padrão a todos os Estados envolvidos em conflitos armados? Ou vai refugiar-se em comunicados ambíguos, apelando à paz sem consequências práticas? O futebol não pode resolver guerras.

Mas pode escolher não ser cúmplice da incoerência. Pode escolher um critério claro, transparente, aplicável a todos. Pode assumir que os valores que invoca não são moeda de troca. No fim, a pergunta não é apenas para a FIFA.

É para todos nós, que consumimos, celebramos e financiamos este espectáculo mundial. Queremos um futebol que proclama princípios ou um futebol que os adapta? Queremos uma instituição que lidera pelo exemplo ou que navega ao sabor das conveniências?

Por: EDUARDO GITO

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