YARA SIMÃO
A Bíblia, no Evangelho de Mateus 7:3-5, convida-nos a reflectir sobre a nossa própria conduta antes de apontarmos os erros dos outros. Jesus questiona por que razão nos preocupamos com o argueiro no olho do nosso irmão, quando temos uma trave no nosso próprio olho. Esta passagem deixa nos uma lição que vai muito além da fé: antes de condenarmos os com portamentos alheios, precisamos de ter a coragem de olhar para nós mesmos.
Talvez esta seja uma das razões pelas quais, enquanto povo, nem sempre conseguimos ser leva dos a sério quando denunciamos a corrupção. Exigimos honestidade a quem governa, mas nem sempre estamos dispostos a reconhecer as práticas que também alimentamos no nosso quotidiano. Estamos habituados a falar da corrupção como se ela tivesse mora da exclusiva nos gabinetes do poder, como se fosse um mal pratica do apenas por quem ocupa cargos de chefia, administra recursos públicos ou toma decisões políticas.
Apontamos o dedo aos governantes, denunciamos os seus excessos e exigimos uma Angola diferente. E temos razões para o fazer. Quando os recursos do Estado são desvia dos, o País perde capacidade para construir escolas, equipar hospitais, melhorar estradas e garantir serviços públicos de qualidade.
A riqueza que deveria servir à população deixa de cumprir a sua finalidade, as condições de vida deterioram-se e as famílias enfrentam dificuldades crescentes para satis fazer as necessidades básicas.
Mas, quando desligamos a televisão e saímos das redes sociais, temos coragem de olhar para dentro de nós? É preciso reconhecer que a corrupção praticada nos níveis mais altos do poder produz consequências que chegam à mesa das famílias. Quando o dinheiro público é desviado, faltam recursos para responder às necessidades da população.
Com salários que muitas vezes não chegam ao fim do mês e oportunidades que continuam a ser insuficientes, há cidadãos que procuram alternativas para conseguir aquilo de que precisam. Alguns acabam por recorrer a esquemas de favorecimento, pagar vantagens indevidas ou aceitar práticas irregulares que, noutras circunstâncias, talvez recusassem.
Compreender esta realidade não significa justificar a corrupção, mas reconhecer que o seu combate também exige instituições responsáveis, melhores condições de vida e ser viços públicos que não obriguem o cidadão a procurar soluções à margem das regras.
Ainda assim, a dificuldade económica não pode servir de justificação para normalizarmos tudo. É importante distinguir quem enfrenta uma situação de necessidade de quem, deliberadamente, procura obter vantagens indevidas. A pobreza não é corrupção, assim como a falta de recursos não retira a ninguém a dignidade.
O problema começa quando transformamos a irregularidade num hábito, a vantagem indevida num direito adquirido e a desonestidade numa prática que justificamos apenas porque outros também a praticam. Não podemos condenar os grandes esquemas e, ao mesmo tempo, conside Comecemos pelas nossas próprias casas e pelos nossos comporta mentos diários.
Quantos procuram um conhecido dentro de uma instituição pública para passar à frente de quem chegou primeiro? Quantos oferecem dinheiro a um funcionário para acelerar um processo ou garantir um atendimento privilegiado? Quantos pagam para obter uma nota escolar, passar num concurso público ou conseguir uma vaga numa instituição? Quantos recorrem à influência de um familiar ou de um amigo para conseguir aquilo a que outros candidatos, com igual ou melhor competência, também têm direito? Estas situações não têm todas o mesmo enquadramento jurídico, mas revelam uma cultura de favoreci mento que prejudica a igualdade de oportunidades e enfraquece a confiança nas instituições.







