Há uma diferença entre abrir uma porta e convidar alguém a posar diante dela. A fotografia prova que estivemos lá. Não prova que nos deixaram entrar. É esta a contradição de mui- tas iniciativas de juventude: os jovens são ouvidos, mas nem sempre participam na escolha dos assuntos, na distribuição dos recursos ou na avaliação dos resultados. Em 1969, Sherry Arnstein apre- sentou a sua «Escada da Participação Cidadã». A ideia continua incómoda: informar e consultar não equivalem a partilhar poder. Entre ouvir uma opinião e permitir que ela altere uma de- cisão, existe uma distância ins- titucional. O poder não começa no mo- mento da votação. Começa antes.
Quem define a agenda escolhe os problemas que merecem atenção — e os que ficam fora da sala. Quem decide o orçamento estabelece quais as soluções que podem existir. Quem escolhe os indicadores pode transformar uma actividade bem fotografada num «sucesso», mesmo quando as mudanças na vida dos participantes continuam por de- monstrar. Mas há uma armadilha na crítica fácil: nem todo o encontro juvenil é teatro, nem toda a con- sulta exige entregar a decisão final aos consultados. Uma instituição tem obrigações técnicas, legais e financeiras. A questão é saber se a participação tem regras claras, influência rastreável e resposta pública às propostas recebidas. Na África do Sul, a National Youth Development Agency declarou ter apoiado 43 163 jovens com intervenções não financeiras de desenvolvimento empre- sarial em 2023/2024.
O número documenta o alcance dos serviços prestados. Não prova, isoladamente, que os negócios prosperaram a longo prazo, nem que os jovens influenciaram as decisões da agência. É uma diferença essencial: actividade não é resultado; resultado não é necessariamente impacto; e receber apoio não é o mesmo que exercer poder. No desporto, conhecemos esta tentação. Contar medalhas é mais simples do que examinar quantos atletas tiveram preparação, quantos treinadores re- ceberam formação e que futuro espera quem deixa a competição.
Um pódio pode ser excepcional num sistema que ainda precisa de melhorar. O desafio ultrapassa os governos. Empresas devem abrir percursos de entrada para quem ainda não tem experiência; universidades, aproximar a formação dos problemas reais; organizações juvenis, prestar contas a quem dizem representar. E nenhuma destas respostas pode ignorar a diversidade de condições entre jovens de uma capital e de uma comunidade rural, entre quem dispõe de redes de contacto e quem nem sequer chega a conhecer uma oportu- nidade. Talvez devêssemos perguntar, no final de cada fórum ou programa: que proposta mu- dou a agenda? Que recursos foram mobilizados? Quem decidiu como medir os resultados — e quem pode contestá-los? Não basta abrir a porta para a fotografia. É preciso discutir quem guarda a chave. E, sobretudo, quem tem o direito de ajudar a decidir o que acontece dentro da sala.
POR: EDGAR LEANDRO






