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OPAÍS

A lição do CAN 2025

Jornal OPaíspor Jornal OPaís
9 de Janeiro, 2026
Em Opinião
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Tempo de Leitura: 3 mins de leitura
A lição do CAN 2025

Diz o velho ditado que quem não tem ovos não faz omeletes. No futebol, essa sabedoria popular encaixa como uma luva. Pode haver a melhor das intenções, astácticas mais bem desenhadas, o discurso mais bem estruturado… mas se não houver matéria-prima em condições, o resultado raramente será diferente do que temos visto.

E o CAN 2025 está aí, como espelho duro, a mostrar onde estamos e onde ainda precisamos chegar. Depois de assistir aos jogos das selecções mais cotadas do continente, Marrocos, Nigéria, Argélia, Camarões, Côte d’Ivoire, não há como não se render à evidência: o diferencial está na qualidade individual. Sim, no talento lapidado, bem posicionado em clubes competitivos, com ritmo de jogo e confiança de quem actua semanalmente ao mais alto nível. Esses jogadores não chegam ao CAN para ganhar forma. Eles já vêm em forma. Têm “jogos nas pernas”, como dizem os entendidos.

Entram em campo com automatismos naturais, com leitura de jogo apurada, com a mentalidade certa. São profissionais que vivem o futebol em ritmo elevado durante toda a época. Isso nota-se nos duelos, na tomada de decisão, no controlo emocional nos momentos-chave.

E, por mais que queiramos romantizar a paixão pelo jogo, “futebol de alto rendimento exige constância e rodagem”. E é aqui que Angola tropeça. Apesar de termos muitos atletas em clubes europeus, uma observação mais profissional mostra que “jogam pouco”. São suplentes regulares, entram nos minutos finais ou estão, em muitos casos, longe do centro das decisões nas suas equipas.

Chegam à selecção sem ritmo, com uma preparação condensada em menos de duas semanas e a missão de brilhar num torneio onde a margem de erro é mínima. A responsabilidade não é só deles, nem exclusivamente do treinador, é estrutural. Precisamos, urgentemente, repensar o processo de “formação e acompanhamento do talento”. Angola tem, talvez, uma das maiores reservas de talento puro do continente. Os meninos dos bairros, dos campos improvisados, dos torneios de rua… muitos com capacidade para serem referência.

Mas sem for mação estruturada, sem clubes organizados e sem projectos de longo prazo, esse talento perde-se, estagna ou é lançado prematuramente ao exterior, sem a preparação necessária. E mais: “não basta formar bem”.

É preciso “acompanhar depois da for mação”. Saber onde esse jovem vai parar, como está a ser gerido, se está a jogar, se está a evoluir. Não podemos continuar a exportar talento apenas para dizer que jogam na Europa. Jogar na Europa sem competir é quase o mesmo que ficar por cá. É necessário que os nossos talentos estejam em ligas onde joguem com regularidade, onde sejam peças chave, onde cresçam.

A solução passa por profissionalizar a base, criar uma liga nacional de formação forte, investir em treinadores capacitados e preparar planos de carreira para os atletas, da escola ao clube. Depois, sim, exportar, mas com critério, para equipas onde possam ser titulares, evoluir e trazer valor real à selecção.

O CAN é uma montra, mas também um laboratório, e neste de 2025, Angola tem a oportunidade de fazer uma análise profunda. A paixão do nosso povo está lá, a vontade dos jogadores, também. O talento puro e bruto nós temos agora falta a coragem e a visão de “sistematizar os processos para a sua delapidação”.

Por: Luís Caetano

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