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Contos d’outros tempos: O dia que a Belinha fugiu do seu próprio sangue em Vidas de Ninguém (VI)

Domingos Bentopor Domingos Bento
9 de Janeiro, 2026
Em Opinião

Aqueles muzumbos esticados, pernas cumpridas, cabelos longos e cor preta baço, como a própria mãe abusava, saiu tudo da família do pai dela. Não era só a semelhança física, Belinha, que era a segunda filha de três irmãos, também saiu a coragem do progenitor, um antigo carpinteiro, que faleceu atropelado por um Mazda, quando ia fazer a entrega de uma sacalouça no bairro Alto, aonde, para além da criminalidade, a zona tinha fama de ser uma área de muitos acidentes devido aos motoristas ilusionistas que frequentavam a maratona do Chula-Chula.

Quando saíam das suas catorzinhas, muitos não respeitavam o acelerador e pisam forte, causando, assim, várias mortes, sendo o pai da Belinha uma das vítimas. Três anos depois, ninguém sabia quem cometeu aquela tragédia. Sabia-se, entretanto, que o tipo que conduzia a viatura presumivelmente estava embriagado, porque os vizinhos que foram socorrer encontraram garrafas de cerveja no carro.

Mas até hoje o homem misterioso desapareceu, deixando, assim, a Belinha e os outros dois irmãos órfãos prematuramente. Mas quem olhava para ela, apesar dos seus poucos 12 anos de idade, já conseguia perceber que aquela coragem era mesmo do pai. Mas essa coragem de menina forte foi diluída num instante quando, naquele dia, ela veio correndo em casa aos prantos, com a bata branca borrada de sangue na parte traseira.

As coleguinhas de sala de aulas, que a acompanharam aos prantos até à casa, contaram que foi o Paito, o colega que sentava na fila de trás, que deu conta do escorrer do sangue. E como não havia professor na sala, os colegas, inocentes, pensaram que ela se tivesse magoado na carteira em que sentava. Tão logo o Paito alertou sobre o sangue, Belinha entrou em pânico e foi correndo directamente para a casa sem parar.

Atravessou, em velocidade furiosa, a estrada sem olhar para os lados, passou pelos cães da rua que a ladravam incessantemente, passou pelas montanhas e ignorou todos que a mandavam parar na tentativa de ajudar. Durante esse percurso agitado, Belinha ainda caiu por duas vezes, sendo que numa dessas quedas acabou por perder um pé das sandálias que calçava.

O puchinho que a tia Teresa havia preparado, no dia anterior, acabou todo desmanchado e completamente fubulado de areia. Na tensa corrida pela casa, Belinha perdeu ainda dois dos três cadernos que carregava na sacola improvisada pela mãe, que não tinha condições para comprar mochila na loja do Só-Manel, um comerciante português que ajudava a comunidade com fiado de tudo.

No bairro todo, apenas a mãe da Belinha não estava a autorizada a fazer fiado na loja por falta de condições de pagamento. Mas, de quando em vez, o próprio Só-Manel fazia questão de oferecer um lanche, lápis e cadernos à Belinha por consideração do falecido pai. Os dois eram muito próximos e passavam longas horas a conversar de baixo da árvore que ficava à porta da loja do Só-Manel. E, naquele dia em que Belinha fugia do seu próprio sangue, o Só- Manel também foi uma das pessoas que ainda tentou parar a miúda, mas sem sucesso.

Assim como ele, na rua em que passava acelerada, as pessoas questionavam sobre o que estava a acontecer com a miúda. A preocupação era maior ainda porque a bata, já toda molhada de sangue e misturada com areia, continuava intacta no corpo dela. <Manhi, wawé minha manhi, Manhi, wawé minha manhi, Manhi, wawé minha manhi>, gritava aflita a miúda numa corrida a toda velocidade sem parar ao meio de um sol abrasador das 12 horas.

No entanto, o percurso de escolacasa e vice-versa, em dias normais, a miúda fazia entre 45 e 50 minutos de andamento. Mas, naquele dia, ela bateu o recorde de 15 minutos, parecendo uma atleta da São Silvestre. Ao chegar em casa, completamente molhada de calor, borrada de sangue, suja de areia, sem um par de sandálias, com parte dos cadernos perdidos, cabelo desmanchado e com os olhos avermelhados de tanto chorar, a miúda atirou-se no colo da mãe, que também acabava de chegar com um bidão de água na cabeça que havia acabado de acarretar na rua de trás. <Tia, nós também não soubemos de nada.

Ela começou a chorar quando o Paito disse-lhe que estava a sangrar. Mas também não soubemos se ela aleijou-se onde>, contou uma das coleguinhas que a acompanhou, igualmente toda cansada, suada e com a voz ofegante. A mãe apavorada entrou igualmente em choque ao notar que a filha estava borrada de sangue. Os vizinhos, que acompanhavam o cenário preocupados, não mais esperaram, ajudaram a mãe aflita a levar a miúda imediatamente ao Posto de Saúde, que ficava a poucos metros de casa, aonde foi submetida para avaliação médica.

Enquanto a mãe, os vizinhos e as coleguinhas da menina estavam sentados na sala de espera do Posto de Saúde, ansiosos pelos resultados da avaliação médica, da porta do consultório saía o enfermeiro, com um irónico sorriso, a pedir à mãe que fosse comprar um absorvente porque aquele sangue, afinal, era da primeira menstruação da Belinha. , dizia o enfermeiro, olhando fixamente para todos presentes à volta que acompanharam a Belinha até ao Posto de Saúde.

Já despreocupada e com um leve sorriso no rosto, a mãe, desprovida de valores financeiros para comprar absorvente na farmácia ao lado, correu para a casa. Retirou a toalha de banho que estava no estendal do quintal, cortou uma metade na ponta e correu até ao Posto de Saúde para improvisar um absorvente para a filha que se recuperava do susto.

Ao entrar para a sala de observação, já a Belinha estava recuperada, limpa e com um absorvente oferecido pela tia Noka, a vizinha de lado que acompanhava tudo ao pormenor e que sabia que a mãe da menina, naquele dia, nem sequer tinha dinheiro para pagar a água que acarretou de kilapi graças a confiança que tinha com o Zeca Afonso, o proprietário da pequena cisterna que abastecia o bairro.

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