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Quatro anos da guerra russo-ucraniana em grande escala: a Rússia perde estrategicamente, mas continua a matar civis

Jornal OPaíspor Jornal OPaís
19 de Fevereiro, 2026
Em Opinião
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Tempo de Leitura: 6 mins de leitura
Apreendidas nove armas de fogo e detidos mais de cem suspeitos

Quatro anos de guerra em larga escala no coração da Europa, a maior guerra desde o fim da Segunda Guerra Mundial, uma agressão sangrenta, genocida e neocolonial – tudo isso caracteriza a agressão armada em curso da Rússia contra a Ucrânia. Até o momento, a invasão armada em larga escala da Ucrânia pela Rússia já dura mais do que a guerra de 1941–1945 entre o Terceiro Reich nazista e o regime de Estaline, que inicialmente foram aliados na divisão da Europa e depois se tornaram inimigos irreconciliáveis. Em 24 de Fevereiro de 2022, a Rússia iniciou o que chamou de “operação militar especial”, e que até o momento se transformou em seu fracasso estratégico. Moscovo não alcançou nenhum dos objetivos declarados.

O preço desse fracasso é de 1.254.450 ocupantes russos mortos e feridos, segundo dados das Forças Armadas da Ucrânia em 16 de Fevereiro de 2026. Cada quilómetro de terra ucraniana ocupado custa à Rússia 156 soldados – tais números são apresentados pelo Presidente da Ucrânia, Sr. Volodymyr Zelenskyy. Ao mesmo tempo, os defensores ucranianos não apenas contêm o agressor, mas também conseguiram libertar mais de 200 km² de território ucraniano apenas desde o início de Fevereiro deste ano. Terror em vez de vitória. Consciente do impasse militar, o Kremlin concentrou-se na destruição da infra-estrutura civil e da população pacífica. Semanalmente, cerca de 1.300 ataques com drones, mais de 1.200 bombas aéreas guiadas e 50 mísseis são lançados contra a Ucrânia. A Rússia transformou o Inverno em arma:

atingiu mais de 63 mil instalações energéticas da Ucrânia, danificou 18 GW de capacidade de geração – milhões de pessoas permanecem sem aquecimento e electricidade. Tais acções enquadram-se na definição de genocídio nos termos do artigo II(c) da Convenção para a Prevenção e Repressão do Crime de Genocídio – submissão deliberada do grupo a condições de existência que acarretarão a sua destruição física, total ou parcial.

Armas químicas e crimes de guerra. A Rússia utiliza sistematicamente armas proibidas. Três relatórios independentes e tecnicamente fundamentados da Organização para a Proibição de Armas Químicas (OPAQ) confirmaram o uso, pela Rússia, de agentes químicos de controle de distúrbios como método de guerra. Em sete granadas de gás russas RG-Vo, entregues pela Ucrânia como prova, foi identificada a substância CS – componente utilizado em meios de dispersão de tumultos.

De Fevereiro de 2023 a Fevereiro de 2026 foram registrados 12.502 casos de uso de munições com substâncias químicas perigosas. Trata-se de violação grave do parágrafo 5 do artigo 1º da Convenção sobre a Proibição de Armas Químicas e constitui crime de guerra sem prazo de prescrição nos termos do Estatuto de Roma do Tribunal Penal Internacional. As autoridades ucranianas investigam 216.090 crimes de guerra.

A Rússia matou na Ucrânia pelo menos 16.784 civis, entre os quais 684 crianças, e feriu outros 40.178 habitantes pacíficos. Foram totalmente destruídas 408 instituições de ensino, e mais de 4,4 mil foram danificadas – cada sexta escola ou universidade do país. A tortura de civis e prisioneiros de guerra por parte dos ocupantes russos adquiriu caráter sistemático. Mais de 11.000 pessoas foram mantidas ilegalmente em locais de detenção com casos documentados de violência sexual. 117 pessoas já foram condenadas, e 365 foram formalmente acusadas.

O sequestro de crianças ucranianas pela Rússia tornou-se a página mais aterradora desta guerra. Mais de 1,6 milhão delas ficaram sob controle da Rússia: deportadas, removidas à força ou bloqueadas em territórios ocupados. A representante oficial do regime russo, Maria Lvova-Belova, reconheceu publicamente o “assentamento” de mais de 700.000 crianças ucranianas no território da Rússia. 4.390 crianças órfãs foram ilegalmente removidas e dispersas por toda a Rússia, e 2.245 são consideradas desaparecidas.

Foram documentados 165 campos de “reeducação” na Rússia, em territórios ucranianos ocupados, na Bielorrússia e até mesmo na Coreia do Norte – onde as crianças são doutrinadas, russificadas e militarizadas. Organizações de direitos humanos qualificam isso como a maior operação estatal de sequestro de crianças na história da humanidade. A União Europeia, os EUA, o Canadá e a Ucrânia impuseram sanções contra 152 pessoas envolvidas. 91 Estados apoiaram a resolução da Assembleia Geral da ONU “Regresso das Crianças Ucranianas”, iniciada pela Ucrânia, em dezembro de 2025.

A Rússia conduz uma guerra econômica sistemática de desgaste contra a Ucrânia. Segundo o Banco Mundial, os danos diretos já somam 176 mil milhões de dólares, e a reconstrução total exigirá 524 mil milhões ao longo de dez anos. Na estrutura dessas perdas, é claramente visível a abordagem russa de ataques contra civis: a maior parte da destruição recai sobre o setor habitacional (33%) e transporte (21%), energia (mais de 63 mil instalações energéticas danificadas e, como resultado, perda de 18 GW de capacidade) e indústria extrativa (12%).

Os parceiros internacionais ajudam ativamente a Ucrânia na reconstrução e no apoio à infra-estrutura energética, e contamos com a continuidade desse apoio. Em particular, agradecemos ao representante empresarial de Angola – Bento Adriano Mendes – pela doação de dezenas de geradores elétricos para as necessidades da infra-estrutura civil, em particular de hospitais, como manifestação das melhores qualidades de humanismo. Ameaça global.

A guerra russa contra a Ucrânia prejudica diretamente a segurança alimentar mundial. O Kremlin transforma a fome em instrumento de chantagem e de guerra, bloqueando os portos ucranianos no Mar Negro e intensificando ataques contra infra-estrutura portuária, navios comerciais e armazéns de grãos. Tais ações desestabilizam cadeias globais de abastecimento e representam ameaça à segurança alimentar mundial – visto que 65% da produção agrícola ucraniana destinam-se à exportação e permanecem essenciais para países mais vulneráveis.

O agressor busca provocar uma crise alimentar nas regiões do mundo que dependem diretamente das exportações ucranianas de grãos. Os métodos criminosos russos representam ameaça não apenas para a Ucrânia, mas também para outros Estados africanos, em particular Angola. Segundo os órgãos de aplicação da lei de Angola, operava em seu território uma rede vinculada a cidadãos da Federação Russa que, por meio de contatos políticos, provocações informativas e incitação de sentimentos de protesto, tentou desestabilizar a situação interna aproveitando-se da greve dos taxistas no final de julho de 2025.

Ou seja, a Rússia, com uma mão, cumprimenta altos funcionários angolanos falando de relações amistosas e estratégicas de longa data com Angola, e com a outra patrocina a desestabilização no país. No contexto mais amplo da guerra da Rússia contra a Ucrânia, utiliza-se abordagem semelhante: o Kremlin combina agressão armada aberta com operações híbridas e desinformação, redes de agentes, provocações e interferência nos processos políticos internos de outros países.

O objetivo é o mesmo – enfraquecer os Estados por dentro, afastá-los de seus parceiros, e diluir os princípios de soberania e integridade territorial nos quais se baseia a segurança internacional. Ao caracterizar a guerra russa como genocídio, a Ucrânia baseiase em factos concretos: a negação pública pelo Kremlin do direito do povo ucraniano à existência, a sua eliminação física, a destruição sistemática da língua, da cultura e da identidade.

Parar o agressor e restaurar o respeito pelo direito internacional e pela Carta das Nações Unidas não é apenas um dever moral da comunidade internacional. É um interesse estratégico comum a todos os Estados que não desejam ser a próxima vítima.

A Ucrânia, há mais de 10 anos, desde a ocupação da Crimeia no início de 2014, resiste à agressão russa e, no final, prevalecerá – simplesmente não temos outra escolha.

A pergunta para toda a comunidade internacional é: de que lado da história estará o seu país, o seu povo e você pessoalmente – do lado da justiça e liberdade ou do lado de mais um agressor e criminoso de guerra na história mundial.

Por: ANDRII KASIANOV

Embaixador da Ucrânia em Angola.

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