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O “fazer” pode ser chamado de substantivo? Um argumento linguístico

Jornal OPaíspor Jornal OPaís
5 de Agosto, 2025
Em Opinião
O “fazer” pode ser chamado de substantivo? Um argumento linguístico

Na gramática da língua portuguesa, as palavras se classificam em diferentes categorias morfológicas, como substantivo, verbo, adjetivo, advérbio, entre outras. Em sua forma comum e mais frequente, “fazer” é reconhecido como um verbo — mais precisamente, um verbo irregular da segunda conjugação, que expressa a ideia de realizar, executar, produzir ou construir algo.

No entanto, em determinados contextos, “fazer” pode funcionar como substantivo. Essa possibilidade revela a flexibilidade da língua portuguesa e a capacidade que ela tem de converter palavras de uma classe gramatical em outra, fenômeno conhecido como derivação imprópria ou conversão. A derivação imprópria ocorre quando uma palavra muda de classe gramatical sem sofrer alterações em sua forma.

No caso do verbo “fazer”, quando é utilizado como substantivo, mantém sua estrutura verbal, mas passa a desempenhar funções típicas de um substantivo. Vejamos o exemplo: > “O fazer pedagógico requer reflexão constante.” Neste exemplo, “fazer” já não é mais o núcleo verbal da oração. Ele é antecedido por um artigo definido (“o”), o que indica que está sendo usado como um substantivo.

Além disso, atua como sujeito da oração, comportamento típico de um substantivo. Aqui, a palavra designa uma ação abstrata ou um conjunto de práticas, e não um ato verbal específico. Isso confirma que, sim, em certos contextos, “fazer” pode ser chamado de substantivo. Do ponto de vista semântico, o “fazer” substantivado ganha um valor mais conceitual.

Ele não se refere necessariamente a uma ação concreta e localizada no tempo, como ocorre com o verbo conjugado, mas a um processo contínuo, uma prática ou um modo de agir.

É comum encontrar essa forma em discursos acadêmicos, filosóficos e profissionais, em que se busca falar de ações de maneira generalizada, como em “o fazer político”, “o fazer artístico”, “o fazer cultural” ou “o fazer literário”.

Além disso, a possibilidade de substantivação de verbos no português é relativamente produtiva. Verbos como “comer”, “viver”, “andar”, “amar” e “saber” também podem ser substantivados: “o comer exagerado faz mal à saúde”, “o saber liberta”, “o amar exige entrega”. Essa característica mostra como a língua se adapta para expressar ideias abstratas e reflexivas.

Do ponto de vista morfológico, é importante destacar que, mesmo sem afixos ou desinências típicas dos substantivos, a palavra é considerada substantivo pelo seu funcionamento na frase.

A gramática moderna valoriza essa análise funcional — ou seja, uma palavra é classificada não apenas por sua forma, mas também pelo papel que desempenha na estrutura sintática.

Portanto, podemos afirmar, com segurança, que o “fazer” pode sim ser chamado de substantivo, desde que esteja sendo usado dentro de um contexto em que desempenhe funções nominais.

Esse uso não é apenas válido, mas enriquecedor, pois amplia o alcance expressivo da língua portuguesa e permite uma comunicação mais abstrata, reflexiva e filosófica. Reconhecer essa versatilidade linguística é fundamental para quem deseja dominar o uso da língua de maneira plena e criativa.

Por: MARCOS DALA
*Professor

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