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OPAÍS

No futebol também se ganha com inteligência

Jornal OPaíspor Jornal OPaís
3 de Julho, 2026
Em Opinião
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Tempo de Leitura: 4 mins de leitura
A linguagem universal do futebol

As eliminações, principalmente do Senegal, República Democrática do Congo e Costa do Marfim deixaram um sentimento difícil de ignorar. Não porque lhes faltasse talento, não porque fossem inferiores aos adversários durante noventa minutos. Mas porque, mais uma vez, o futebol mostrou que os jogos não terminam quando o relógio marca 80 minutos. É precisamente aí que começa a verdadeira prova de maturidade competitiva.

As conversas que mantive com vários treinadores, profissionais por quem nutro enorme respeito, apontaram todas na mesma direcção, não houve divergências. A conclusão foi praticamente unânime: às selecções africanas faltou consistência na gestão dos mo mentos decisivos das partidas. E a consistência é uma virtude que não aparece por acaso, é treinada, repetida, aperfeiçoada e transformada em hábito.

O Mundial 2026 ficará mar cado, para África, como um torneio de oportunidades desperdiçadas nos minutos finais. O Senegal tinha a Bélgica praticamente derrotada, a RDC discutia a qualificação até aos instantes derradeiros frente à Inglaterra e a Costa do Marfim também viu escapar um resultado que parecia perfeita mente ao seu alcance diante da Noruega. Três histórias diferentes, mas com um denominador comum: a incapacidade de controlar emocional e tacticamente os momentos de maior pressão.

O futebol moderno já não se resume à qualidade técnica. Hoje, as grandes selecções dominam outra arte: a arte de sofrer. Sofrer sem perder a organização, sem entrar em pânico e sabendo exactamente quando acelerar e quando congelar o jogo. Foi precisamente isso que faltou às selecções africanas.

Quando uma equipa está em vantagem nos últimos minutos, o jogo muda completamente de natureza. Já não vence quem cria mais oportunidades, muitas vezes vence quem faz a melhor gestão do tempo, dos espaços e das emoções. As maiores potências mundiais treinam estes cenários quase como se fossem uma modalidade diferente. Não é coincidência vermos selecções como França, Argentina, Espanha ou Portugal conseguirem proteger resultados durante longos períodos de pressão. Existe trabalho aturado por detrás dessa serenidade. Os treinadores com quem conversei destacaram vários princípios fundamentais que deveriam fazer parte da rotina das selecções africanas.

O primeiro passa por manter as linhas defensivas compactas. Quando o adversário aumenta a pressão, muitos jogadores africanos recuam de forma desorganizada, criam-se espaços entre sectores, surgem corredores para infiltrações e qualquer bola dividida transforma-se numa oportunidade de golo. Defender não significa apenas colocar mais jogadores atrás da linha da bola, significa manter distâncias curtas, comunicar constante mente e fechar os espaços interiores.

Outro ponto determinante é a posse de bola inteligente. Existe uma tendência, quando a pressão aumenta, para aliviar rapidamente a bola através de pontapés longos. Na maioria das vezes, essa decisão apenas devolve a posse ao adversário e prolonga o sofri mento. As grandes equipas fazem exactamente o contrário, trocam passes curtos, obrigam o adversário a correr, retiram intensidade ao jogo e fazem o relógio trabalhar a seu favor. Também as chamadas faltas tácticas continuam a ser um recurso pouco explorado por muitas selecções africanas. Não se trata de anti-jogo, mas de inteligência competitiva.

Uma falta longe da área pode impedir uma transição perigosa, permitir o reposicionamento defensivo e reduzir o ritmo emocional do encontro. É um detalhe aparentemente pequeno, mas que decide campeonatos. As substituições merecem igualmente reflexão. Muitas vezes, os treinadores esperam demasiado tempo para refrescar a equipa. Jogadores exaustos deixam de pressionar, chegam atrasados aos duelos e perdem lucidez na tomada de decisão. Introduzir atletas fisicamente disponíveis, especialmente para proteger os corredores laterais e reforçar o meio-campo, pode fazer toda a diferença nos minutos finais.

As selecções africanas precisam de criar, durante os estágios, cenários de máxima pressão. Simular jogos em que vencem por um golo faltando dez minutos, trabalhar inferioridade numérica, defender vantagens mínimas contra ataques constantes. Ensinar os jogadores a interpretar cada momento sem ansie dade. Os adeptos africanos mereciam ver o Senegal, RDC e Costa do Mar fim prolongarem a sua aventura neste Mundial.

Em muitos momentos, essas equipas jogaram um futebol suficientemente competente para continuar em prova. Contudo, o futebol internacional não recompensa apenas quem joga melhor durante grande parte do encontro.

Recompensa quem sabe controlar os detalhes quando tudo parece fugir ao controlo. Já não basta competir de igual para igual, é preciso aprender a fechar jogos e transformar vantagem em vitória. É preciso desenvolver uma cultura competitiva onde cada minuto tenha um plano e cada jogador saiba exactamente o que fazer quando o relógio entra na sua fase mais cruel.

Por: Luís Caetano

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