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Do erro à variação: ideologias linguísticas e desafios do ensino do Português em Angola no século XXI (I)

Jornal OPaíspor Jornal OPaís
16 de Julho, 2026
Em Opinião
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Tempo de Leitura: 3 mins de leitura
Do erro à variação: ideologias linguísticas e desafios do ensino do Português em Angola no século XXI (I)

O ensino da língua portuguesa em Angola continua a ser marcado por uma tensão persistente entre a tradição normativa e a realidade sociolinguística do país. Em bora o português seja a língua oficial e a principal língua de escolarização, grande parte dos alunos inicia o per curso escolar dominando uma língua bantu como primeira língua ou vivendo em contextos de bilinguismo e plurilinguismo. Esta realidade produz um desfasamento entre a norma linguística privilegiada pela escola e as práticas linguísticas efectivamente utilizadas pelos falantes, conduzindo frequentemente à classificação de fenómenos de variação como simples “erros”.

A Linguística contemporânea de monstra, contudo, que nenhuma língua é homogénea. A variação constitui uma propriedade inerente aos sistemas linguísticos e reflecte factores históricos, sociais, geográficos e culturais. Labov (1972) demonstrou que as diferenças linguísticas obedecem a padrões sis temáticos e não representam desvios arbitrários. Nesta perspectiva, a escola deve distinguir entre erro efectivo de aprendizagem e formas de variação próprias das comunidades de fala. No contexto angolano, esta distinção assume particular relevância.

O contacto permanente entre o português e as línguas nacionais influencia a pronúncia, o léxico, a sintaxe e determinadas escolhas discursivas dos falantes. Longe de constituírem sinais de incompetência linguística, muitos destes fenómenos traduzem processos naturais de contacto entre línguas e de construção da identidade sociocultural dos seus utilizadores.

Grande parte das práticas pedagógicas ainda assenta numa concepção prescritiva da língua, segundo a qual apenas a norma-padrão representa a forma legítima de expressão. Esta perspectiva favorece uma ideologia linguística que associa prestígio social à variedade escolar e desvaloriza as restantes formas de falar português em Angola.

Segundo Bourdieu (1991), a escola desempenha um papel determinante na legitimação de determinadas variedades linguísticas, convertendo-as em capital simbólico. Consequentemente, os alunos cujas práticas linguísticas se afastam da norma escolar encontram maiores obstáculos ao sucesso educativo, não necessariamente por falta de capacidade, mas porque a sua variedade de origem é frequente mente interpretada como deficiência linguística.

Autores como Faraco (2008) e Bagno (2007) defendem que o combate ao preconceito linguístico constitui uma condição indispensável para um ensino mais democrático. Ensinar a norma-padrão continua a ser fundamental, mas isso não implica negar legitimidade às varie dades efectivamente utilizadas pelos falantes.

A competência comunicativa pressupõe precisamente a capacidade de adequar a linguagem às diferentes situações de comunicação. Em Angola, diversos investigadores têm igualmente salientado que o português se encontra em permanente evolução, incorporando ca racterísticas resultantes do contacto secular com as línguas nacionais.

Paulino Soma Adriano demonstra que o português angolano apresenta especificidades fonéticas, lexicais e sintácticas próprias, cuja descrição científica contribui para compreender a dinâmica linguística nacional. Esta perspectiva permite substituir uma visão baseada exclusivamente na correcção normativa por uma abordagem centrada na descrição dos usos reais da língua.

Leia mais em…

Por: FERNANDO CHILUMBO

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