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Crédito bancário: Quando vale a pena se endividar em Angola?

Jornal OPaíspor Jornal OPaís
15 de Maio, 2026
Em Opinião
Crédito bancário: Quando vale a pena se endividar em Angola?

Em Angola, a palavra “crédito” divide opiniões. Para uns, é a alavanca que transforma um projecto numa empresa. Para outros, é a armadilha que trans forma um sonho numa dívida sem fim. Com taxas de referência ainda na casa dos dois dígitos e exigências de garantias que parecem intransponíveis para quem está a começar, o acesso ao financiamento continua a ser um dos maiores estrangula mentos da economia real.

Mas a pergunta certa não é “por que é tão difícil?”. É “quando faz sen tido aceitar?”. A matemática do crédito em Angola é implacável. Quando o custo do dinheiro é elevado, o em préstimo só se justifica se a actividade financiada gerar um retorno superior à taxa efectiva praticada. Um crédito para consumo (electrodomésticos, viagens, celebrações) é, na prática, antecipar o futuro com juros. Um crédito para produção (equipa mento, stock, formação, expansão comercial) é investir no presente para multiplicar o amanhã.

A linha que separa a alavancagem da asfixia não está no montante aprovado. Está no destino dos fundos e na capacidade de geração de fluxo de caixa. O sistema financeiro angolano, por mais que tenha modernizado processos e digitalizado canais, ainda opera num modelo de aversão ao risco estrutural. As garantias reais (imóveis, viaturas, depósitos a prazo) continuam a ser a moeda de troca preferencial.

Isso protege a instituição, mas exclui o empreende dor que tem competência, mercado e histórico de vendas, mas não tem património registado. O resultado é conhecido: quem precisa de capital para crescer nem sempre o encontra no balcão; quem o encontra, por vezes, assume prestações que comprimem a margem operacional e comprometem a saúde do negócio. E aqui entra a literacia financeira: negociar não é pedir desconto.

É entender spreads, prazos, períodos de carência e o impacto real das prestações no orçamen to mensal. Antes de assinar qualquer contra to de financiamento, faça três con tas. Primeira: qual é a taxa efectiva anual, incluindo seguros, comis sões de abertura, seguros de vida e encargos administrativos? Se gunda: qual é a prestação máxima que o seu negócio ou agregado familiar suporta sem comprometer despesas essenciais ou paralisar o reinvestimento? Terceira: qual é o plano B se o rendimento esperado atrasar três ou seis meses? O crédito responsável não é o que é fácil de obter. É o que é sustentável de gerir.

E, em muitos casos, a decisão mais inteligente é adiar o em préstimo, renegociar prazos com fornecedores, buscar capital próprio ou recorrer a linhas de apoio específicas até que as condições se alinhem com a maturidade do projecto. Endividar-se não é pecado nem virtude. É uma ferramenta. E como toda ferramenta, o valor está na mão de quem a usa e na finalidade a que se destina.

Num país em transição económica, o acesso ao financiamento deve evoluir progressivamente da cultura da garantia para a cultura do projecto, do histórico e da capacidade de pagamento. Até que essa maturação se complete, a prudência vence a pressa. Nas próximas sextas-feiras, vamos mudar de foco: empreender em 2026. Que sectores têm realmente vento a favor? Onde está o capital paciente? E como transformar uma ideia num modelo de negócio que resista aos ciclos? Porque a dívida só faz sentido quando serve a um propósito que gera valor sustentável.

Por: ABRAÃO HUNGULO

*Economista e consultor

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