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Antes que o tempo se cale

Jornal OPaíspor Jornal OPaís
15 de Maio, 2026
Em Opinião
Apreendidas nove armas de fogo e detidos mais de cem suspeitos

Vivemos como se o tempo fosse infinito. Mas não é. Cada amanhecer é um lembrete. O relógio não mede apenas horas: mede fragmentos irreversíveis da nossa existência. Talvez o erro humano resida na crença tácita de que haverá sempre mais tempo. Mas a verdade é que nem sempre haverá. E esta é a regra. Sob essa ilusão, adiamos o essencial, adiamos a vida: os abraços, as palavras dóceis, o carinho, os momentos de alegria, a família, a amizade, o arrependimento, o perdão, o amor.

E assim vamos transferindo a vida para um “de pois” que nunca nos garante a sua chegada. O tempo não aceita suborno! O tempo flui! O tempo não nos pertence; somos nós que pertencemos a ele. E, quer o aceitemos ou não, um dia o relógio marca rá a última batida. Nesse instante, restará apenas o rastro do que fomos. E quem fomos depende de quem somos.

Tal como outras gerações abriram caminho para a nossa existência, também nós seremos, inevitavelmente, substituídos por um novo batalhão, talvez soldados melhores, talvez piores. Mas, de qual quer forma, não podemos deixar o mundo pior do que o encontra mos. Não é ético, não é ecológico. E isto não é apenas uma questão de ética. Não somos permanentes. Nem nós, nem aqueles que amamos. E, cedo ou tarde, sem aviso e sem negociação, alguém partirá primeiro.

Não sabemos quem, e ainda bem. Acreditamos, sem o dizer, que o amigo, o irmão, o companheiro, o pai, a mãe, o filho, o marido ou a esposa estarão sempre connosco. Até que o tempo, silencioso e indiferente, nos desmente. Por isso, talvez devêssemos parar mais vezes.

Olhar verdadeiramente para o rosto daqueles que amamos e reconhecer, com honestidade existencial, que cada encontro contém em si o germe da despedida, com a consciência de que nem sempre estaremos juntos. Temos apenas o agora, contínuo, irrepetível e indiferente às nossas procrastinações.

O tempo corre sem anúncio, sem pedir permissão. E, quando final mente olhamos para trás, somos surpreendidos pela mesma pergunta inquietante: como tudo passou tão depressa? Por que não de diquei mais tempo ao fulano ou ao sicrano? O mal do tempo é precisa mente este: ele não avisa que está a passar.

Ele apenas passa. E, quando nos apercebemos, já estamos dentro da sua irreversibilidade. Santo Agostinho de Hipona (354 430) perguntava: “O que é, pois, o tempo? Se ninguém me pergunta, eu sei; se quero explicá-lo a quem me pergunta, já não sei.” Nas Confissões, Agostinho aprofunda esta inquietação ao afirmar que não existem três tempos, passado, presente e futuro, mas apenas três presentes: o presente do passado, o presente do presente e o presente do futuro.

Sêneca (4 a.C.–65 d.C.) advertia, com lucidez implacável: “Não é que tenhamos pouco tempo de vi da, mas que desperdiçamos muito dele.” Essa advertência permanece actual, talvez até mais urgente do que nunca: a distração tornou se uma condição colectiva. E, com ela, cresce a distância entre os seres humanos.

Michel de Montaigne (1533–1592) talvez tenha razão ao afirmar: “Filosofar é aprender a morrer.” Martin Heidegger (1889–1976), ao pensar o homem como ser-para-a-morte, mostra-nos que a autenticidade da existência só emerge quando deixamos de fugir da finitude e passamos a habitá-la, aquilo a que chamou autenticidade da existência.

Também o Eclesiastes já advertia, com uma sabedoria amarga e luminosa, que é melhor ir à casa do luto do que à casa do banquete, por que é na consciência da perda que o ser humano desperta para a vida.

Assim, cada manhã deveria ser um exercício de lucidez: reconhecer que estamos aqui por tempo limita do, que os outros também estão de passagem, e que viver no automático não é viver, é apenas sobreviver ao tempo sem o habitar.

Cada hora desperdiçada em res sentimento é uma hora amputa da de ternura. Cada minuto guar dado na indiferença é uma oportu nidade perdida de humanidade.

O relógio contabiliza vidas não vividas, palavras não ditas, gestos não realizados, silêncios que nunca se transformaram em encontro. Tal vez, em alguns momentos, seja necessário aprender a escutar a mor te. A morte ensina sobre o tempo. E quem sabe usar o tempo a seu favor é sábio. Sugiro, então, que cada despertar seja um acto filosófico e espiritual, um imperativo íntimo de consciência: uma breve meditação sobre a nossa própria finitude.

Uma espécie de oração laica. O tempo não se comove com pro messas e nem sempre devolve opor tunidades. Quando chega a hora, recolhe tudo: pobres e ricos, reis e servos, eruditos e analfabetos, políticos e “políticos”. Quantos compreenderão, no limiar da despedida, que o essencial nunca foi a extensão da vida, mas a profundidade com que se viveu? Ou, melhor, as duas coisas.

Uma frase popularmente atribuída a William Shakespeare (1564–1616) diz: “O tempo é muito lento para os que esperam, muito rápido para os que temem, muito longo para os que sofrem, muito curto para os que gozam; mas, para os que amam, o tempo é eternidade.” E talvez seja por isso que devemos aprender a focar no essencial e nos essenciais: amar de forma plena, o eros, a philia e o ágape, como formas distintas de atravessar o mesmo mistério. E, nas últimas palavras de Hamlet: “O resto é silêncio.”

Leia mais em…

Por: CARLOS PIMENTEL LOPES

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