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A soberania veste bits

Jornal OPaíspor Jornal OPaís
6 de Agosto, 2026
Em Opinião
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Tempo de Leitura: 3 mins de leitura
A soberania veste bits

Existe um paradoxo que define o nosso tempo. Quanto mais digital torna se um país, mais in visíveis tornam-se as suas vulnerabilidades. As estradas continuam a ser de asfalto, os portos permanecem à beira-mar e as fronteiras continuam desenhadas nos mapas. No entanto, uma parte crescente da soberania nacional circula hoje por cabos submarinos, servidores, centros de dados e satélites.

É um território que não pode ser visto do espaço, mas cuja interrupção pode paralisar uma economia com uma eficácia que outrora apenas se atribuía à guerra convencional.

A recente interrupção nacional dos serviços da UNITEL ofereceu a Angola uma demonstração prática desta realidade. In dependentemente das causas do incidente, a questão verdadeiramente relevante reside em saber o que o episódio revelou.

Durante alguns dias, milhões de cidadãos foram confrontados com uma evidência raramente discutida fora dos círculos especializados, pois, a estabilidade de um Estado moderno depende tanto das suas infra-estruturas digitais quanto das suas infra-estruturas físicas.

Durante séculos, a soberania foi definida pela capacidade de um Estado exercer autoridade sobre um território delimitado por fronteiras físicas. Desde Jean Bodin até à ordem internacional estabelecida em Vestefália, a integridade territorial constituiu o principal critério da autonomia política. Esta concepção ainda é válida, mas tornou-se insuficiente.

O território sobre o qual o poder é exercido expandiu-se. Hoje, uma parte importante da activida de económica, da administração pública, da circulação financeira e até da segurança nacional ocorre num espaço que não conhece fronteiras geográficas, mas cuja interrupção produz consequências profundamente territoriais.

A soberania digital não representa uma ruptura com a soberania clássica; representa a sua evolução lógica. Tal como nenhum Estado pode abdicar do contro lo do seu espaço aéreo, também não pode ignorar os sistemas que sustentam comunicações, paga mentos electrónicos, energia, transportes, saúde ou defesa. A diferença é que estas infra-es truturas operam numa geografia invisível, onde as distâncias medem-se em milissegundos e as vulnerabilidades atravessam continentes à velocidade da luz.

Esta transformação alterou igualmente a natureza do poder. Manuel Castells demonstrou que a sociedade contemporânea organiza-se em torno de redes de informação. Nessas redes circulam dados, mas também riqueza, influência e capacidade de decisão.

Joseph Nye acrescentou que o poder deixou de ser monopólio exclusivo dos Estados, distribuindo-se entre governos, em presas tecnológicas e actores privados capazes de controlar plataformas essenciais ao funcionamento das economias mo dernas. Barry Buzan, por sua vez, ampliou o conceito de segurança muito para além da dimensão militar, integrando factores económicos, políticos, societais e ambientais.

O ciberespaço tornou-se o ponto onde todas essas dimensões convergem. O resultado é uma alteração silenciosa da própria lógica estratégica. Clausewitz escreveu que a guerra constitui a continuação da política por outros meios.

No século XXI, muitos conflitos começam antes da guerra declarada. Iniciam-se através da manipulação de informação, da sabotagem de redes críticas, da espionagem industrial, da interrupção de comunicações ou da erosão gradual da confiança pública.

Leia mais em…

Por: EDMUNDO GUNZA

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