Dani Costa
Coordenador
Foi em finais da década de 90 que iniciei o percurso jornalístico. Foi num momento peculiar da política angolana. O país procurava de modo incessante a paz, porque, apesar de existir um grupo parlamentar da UNITA no Parlamento, a então ala belicista ainda enfrentava as forças do Governo nas matas.
Era o tempo das renovadas. Além do maior partido da oposição, a FNLA, de Holden Roberto, também vivia o seu dilema depois de o professor Lucas Benguy Ngonda ter lançado o seu movimento reformista, argumentando já alguma caducidade do ‘Velho’ para aquilo que pensava ser os melhores passos para a concretização dos desígnios do partido da ‘Liberdade e Terra’.
O conflito na FNLA dominou as parangonas dos jornais, seja televisivos, impressos e até radiofónicos. Em quase todas as semanas, era inevitável não existir uma manchete que não tivesse como escopo os irmãos desavindos da Terra Nova e da Samuel Bernardo, duas áreas da cidade de Luanda que albergavam, respectivamente, as sedes dos reformistas de Ngonda e dos conservadores de Holden Roberto.
A dissensão entre os dois grupos era tão intensa que, num dado momento, foi necessária a criação de um grupo de mediação para que se pudesse ultrapassar o problema, o que, infelizmente, não aconteceu. Recordo-me ainda hoje dos célebres encontros mediados pelo reverendo Ntoni Nzinga, o político João Kamboela e o jornalista e advogado Willian Tonet.
Foi pelos esforços do trio que se chegou aos Acordos da Pensão Invicta, em Luanda, ou seja, o encontro que ditaria a paz definitiva entre os irmãos, que levaria o partido a um congresso que varreria todo o passado em busca de uma nova organização política que participou activamente na luta de libertação nacional.
Quando se esperava por um verdadeiro congresso da reconciliação, no espaço que albergava a então Feira Internacional de Luanda, no Cazenga, optou-se por um arranjo que sempre considerei nefasto para as aspirações e o futuro da FNLA, como se veio a observar tempos depois.
Era preferível que, na altura, Holden e Ngonda se enfrentassem nas urnas do que tornar o primeiro presidente e o segundo vice-presidente, como se observou. Mas é passado. Volvidas mais de duas décadas, mesmo depois de Holden ter partido para o além. Ngonda, o reformista, já ter largado o barco, a FNLA continua mergulhada numa crise.
E, ao que tudo indica, dias piores se avizinham, o que poderá levar mesmo à extinção deste partido, caso não consiga votos suficientes nas eleições do próximo ano. Nesta edição, o jornal entrevista o político e professor universitário João Roberto Soki, responsável pelos assuntos políticos da FNLA, e traz à liça aquilo que considera ser a realidade actual da organização que dirige.
E acusa um dos nomes mais sonantes – tido até como delfim de Holden Roberto, Ngola Kabangu, de atentar contra o partido. E são acusações graves. Para já, o que se sabe é que hoje um grupo garante organizar um congresso.
A direcção, encabeçada pelo actual presidente Nimi a Simbi, convocou um outro para finais de Novembro, em Luanda, em que este deverá concorrer a solo. Os fantasmas dos tempos das renovadas parecem ter ressurgido.
E não há dúvidas de que os dois grupos se vão querer apropriar daquilo que são os pretensos objectivos que a FNLA preconiza para os próximos tempos, à semelhança do que se viveu na fase Holden Roberto e Lucas Ngonda.
O primeiro está enterrado em Mbanza Kongo. O segundo deve estar a assistir à novela de um confortável sofá, dizendo a alguns que, afinal, ‘nunca fui a fonte do problema’, porque, ao que tudo indica, deve ser mais profundo. Pena é que nós, os jornalistas, ainda teremos que arranjar paciência para acompanhar estes capítulos da nossa história, que um dia até, no Cine São João, quase foram resolvidos a bordoadas.




