Dani Costa
Coordenador
É provável que muitos já não se lembrem. Mas um dos episódios do arco-da-velha que este país já testemunhou foi a venda de um melão, num dos supermercados da capital, por um valor acima dos 100 dólares norte americanos. Na altura, por incrível que pareça, os responsáveis da referida loja ainda tentaram justificar que a fruta eram transportadas por avião, que saia de Portugal para Angola, em condições que acabavam por justificar o preço aplicado.
Este acontecimento, digno de uma boa novela, movimentou determinados círculos da sociedade angolana, em que, na época, muitos expatriados tinham como o seu ‘el dourado’, principalmente na fase dos petrodólares. Depois da polémica, quando me desloquei a Portugal, a minha primeira preocupação foi saber, in situ, quanto custava o famoso melão e se havia ou não razões para que em Angola alguém o vendesse por mais de 100 dólares norte-americanos.
Recordo-me de ter ido jantar ao restaurante Galeto. Ironicamente, quando me foi solicitado o pedido, disse somente ao garçon que só queria umas fatias de melão. Rindo-se, perguntou a razão daquele pedido, expliquei lhe que um empresário saído de Portugal vendia na sua loja um melão pelo estrondoso preço, ao que ele retorquiu: ‘vocês em Angola aceitam todo o tipo de gente.
Dê-me os 100 dólares que te entrego uma caixa de melões’. Durante anos, graças à política do contentor dos navios e do porão dos aviões, Angola serviu de mote para que muitos se enriquecessem, razão pela qual muitos acabavam por priorizar a importação em detrimento de uma verdadeira aposta na produção nacional.
Há algumas semanas, quando regressava de uma viagem de trabalho ao Cuanza-Sul, encontramos centenas de melões e melancias espalhados num pequeno mercado à saída do Wako Kungo. Sempre que vejo a primeira fruta, vem-me sempre à memória o célebre caso ‘melão de ouro’ e o aproveitamento que muitos faziam dos angolanos na época em que se investia na agricultura com alguma timidez e receios.
Felizmente, depois de muitos anos de estagnação, que exigiram do Executivo medidas concretas no sentido de se impulsionar o sector agrícola, são visíveis os sinais de aumento da produção. Conforme frisou o ministro de Estado da Coordenação Económica, José de Lima Massano, durante a abertura da campanha agrícola 2026-2027, na época anterior, “a produção atingiu cerca de 33 milhões de toneladas, o melhor resultado alcançado até ao momento.
As raízes e os tubérculos registaram um crescimento de 9,1%, para 17,6 milhões de toneladas, das quais cerca de 14,5 milhões correspondem à mandioca”. O governante realçou que a produção de frutas aumentou 7,7%, para 7,8 milhões de toneladas, impulsionada sobretudo pela banana, manga e ananás.
O desempenho do sector contribuiu igualmente para a redução da dependência externa, referindo que, entre 2017 e 2025, as importações de bens alimentares diminuíram 31,1%, reflectindo o aumento da oferta nacional e a maior presença de produtos angolanos nos mercados”.






