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OPAÍS

Quem está a construir a aldeia?

Jornal OPaíspor Jornal OPaís
17 de Agosto, 2026
Em Opinião
Quem está a construir a aldeia?

DR

Á frica Austral tem talento. O verdadeiro desafio é construir os sistemas capazes de o transformar em capacidade. Em muitas comunidades africanas, educar uma criança nunca foi tarefa exclusiva de duas pessoas. A casa dava-lhe abrigo. A família transmitia valores. Os mais velhos guardavam memória.

A comunidade corrigia, ensinava, protegia e preparava. A criança crescia dentro de uma rede. Existem diferentes formas desta ideia nas tradições africanas. Entre os Banyoro, por exemplo, encontramos uma expressão que pode ser traduzida como: “uma criança não cresce apenas numa casa.” Talvez esta antiga imagem africana nos ajude a compreender um dos grandes paradoxos da África Austral contemporânea. Temos talento.

Muito talento. Encontramo-lo nos bairros de Luanda, nos campos de Maputo, nas escolas de Gaborone, nas universidades de Lusaka, nas comunidades de Windhoek, Harare, Lilongwe, Maseru e Mbabane. Encontramo-lo no jovem que corre. Na rapariga que programa. No estudante que inventa. No treinador que descobre. No músico que cria.

No pequeno empreendedor que começa praticamente sem nada. A nossa dificuldade não é apenas descobrir essas pessoas. É construir a aldeia que lhes permita chegar longe. O campeão que vemos e a aldeia que não vemos Quando um atleta africano sobe ao pódio, vemos a medalha. Vemos a bandeira. Ouvimos o hino. Fotografamos o momento.

Mas o pódio pode enganar-nos. Porque aquilo que dura segundos começou muitos anos antes. Por detrás de um campeão deveria existir uma escola que identificou talento. Um treinador preparado. Uma federação funcional. Competições regulares. Nutrição. Medicina desportiva. Ciência. Infra- estruturas. Dados. Financiamento. Gestão. Família. Comunidade. Quando tudo isso existe, aquilo a que chamamos “talento” começa a transformar-se em desempenho.

Quando não existe, esperamos que o indivíduo faça sozinho aquilo que deveria ser responsabilidade de um ecossistema. E depois admiramo-nos quando tantos desaparecem pelo caminho. “Eu sou porque nós somos” O filósofo queniano John Mbiti condensou uma dimensão importante do pensamento comunitário africano numa formulação que atravessou gerações: “Eu sou porque nós somos; e porque nós somos, eu sou.”

A ideia não elimina a responsabilidade individual. Pelo contrário. Recorda-nos que nenhuma pessoa se desenvolve completamente isolada das instituições, relações e comunidades que a rodeiam. Esta reflexão tem enorme actualidade. Porque talvez tenhamos construído uma cultura que celebra excessivamente o vencedor e questiona insuficientemente o sistema que deveria produzir milhares de vencedores. Celebramos o génio. Precisamos também de estudar a fábrica de oportunidades que tornou possível o génio.

Não é apenas um problema do desporto Retiremos agora o atleta do estádio. Coloquemos no seu lugar uma jovem empreendedora. Ela pode ter uma excelente ideia. Mas precisa de capital, competências, acesso ao mercado, tecnologia, mentoria e regras que permitam à empresa crescer. Coloquemos um estudante. Pode possuir extraordinária inteligência. Mas precisa de uma escola capaz de transformar curiosidade em conhecimento e conhecimento em capacidade. Coloquemos um jovem programador.

Pode aprender sozinho através da Internet. Mas, para transformar código em empresa, emprego ou inovação, precisará novamente de um ecossistema. É aqui que a questão deixa de ser desportiva. Estamos a falar de desenvolvimento. Nyerere fez a pergunta há quase 60 anos Em 1967, Julius Nyerere, no seu histórico Education for Self-Reliance, colocou uma questão desconfortável. Para que serve a educação se ela não tiver relação com a sociedade que estamos a tentar construir? Nyerere estava a pensar na Tanzânia pós-independência.

Mas a pergunta sobreviveu ao seu tempo. E merece ser feita novamente em 2026: Que tipo de africano os nossos sistemas estão preparados para formar? Não basta aumentar o número de escolas se aprendizagem e capacidade não acompanharem esse crescimento. Não basta termos universidades se conhecimento, indústria e mercado permanecerem separados. Não basta organizar competições juvenis se não existir um caminho entre descoberta, desenvolvimento e excelência. Não basta lançar programas de empreendedorismo se, quando o programa termina, termina também o apoio.

E não basta produzir estratégias extraordinárias se a execução desaparecer na primeira mudança de liderança. Talvez o nosso problema nem seja falta de sistemas Aqui está a parte mais desconfortável. A África Austral possui sistemas. Temos ministérios. Temos escolas. Temos universidades. Temos federações. Temos bancos. Temos incubadoras. Temos empresas. Temos organizações regionais. Temos estratégias nacionais. Temos planos de desenvolvimento. Temos declarações, protocolos e compromissos. Portanto, dizer simplesmente que “faltam sistemas” seria demasiado fácil.

O problema é que demasiadas vezes esses sistemas não formam um sistema. Existem lado a lado, mas não trabalham juntos. A escola não conversa suficiente- mente com o mercado. O desporto escolar não conversa suficientemente com o alto rendimento. A universidade não conversa suficientemente com a indústria.

O jovem empreendedor não encontra facilmente o capital. Os países desenvolvem soluções que os vizinhos desconhecem. Os projectos começam. O financiamento termina. Começamos novamente. E cada recomeço custa-nos uma geração de experiência. Construir corredores de talento Falamos muito, e correctamente, de corredores económicos na África Austral. Corredores rodoviários. Ferroviários. Energéticos.

Logísticos. Mas talvez esteja na hora de imaginarmos também corredores de talento. Uma África Austral onde um atle- ta identificado em Angola possa competir regularmente com os melhores de Botswana, Namíbia, Zâmbia, Zimbabwe, Moçambique ou África do Sul. Onde um investigador de Malawi consiga trabalhar com uma universidade regional sem encontrar uma muralha burocrática. Onde uma startup de Lusaka possa encontrar capital em Joanesburgo, clientes em Gaborone e talento em Maputo.

Onde universidades, empresas, federações, governos e investi- dores consigam enxergar a região não como pequenos mercados se- parados, mas como um ecossiste- ma humano interligado. Isso também é integração regional. Talvez seja a sua forma mais im- portante. Porque uma medalha também pode ser política económica Precisamos ainda de abandonar outra velha separação. Desporto de um lado. Economia do outro. Isso pertence ao passado. Um atleta é também propriedade intelectual. Uma competição gera turismo. Uma transmissão gera audiência. Audiência gera publicidade.

Dados geram conhecimento. Clubes geram comunidades. Merchandising gera comércio. Instalações geram actividade económica. Grandes competições podem gerar destinos. E histórias extraordinárias geram marcas. Por isso, quando um país desenvolve atletas, treinadores, dirigentes, eventos, instalações e indústrias associadas, não está simplesmente a financiar desporto. Está potencialmente a construir uma economia do desporto. Mas novamente encontramos a aldeia. Nenhum desses elementos funciona sozinho. Dinheiro não resolverá tudo Existe uma resposta habitual para quase todos estes problemas: Precisamos de mais dinheiro. Sim. Precisamos. Mas dinheiro colocado num sistema fragmentado pode simples- mente financiar melhor a fragmentação. Antes do próximo milhão precisamos de fazer algumas perguntas básicas.

Onde está o talento? Quem o identifica? Quem o acompanha? Quem mede o seu desenvolvimento? Qual é o caminho até à excelência? Quem financia cada etapa? Que instituição responde pelo resultado? E talvez a pergunta mais importante: quem responde quando o talento desaparece? Porque aquilo que não tem res- ponsável dificilmente tem resultado. A aldeia do século XXI A aldeia africana de hoje já não tem necessariamente uma fogueira no centro. Pode ter fibra óptica. Pode ter inteligência artificial. Pode ter universidades conectadas. Pode ter centros de alto rendimento.

Pode ter investidores privados. Pode ter plataformas digitais. Pode atravessar fronteiras. Mas a filosofia continua surpreendentemente familiar. Nenhum de nós chega verdadeiramente longe sozinho. Por isso, talvez uma das perguntas mais importantes para a África Austral não seja simplesmente quantos jovens temos. Nem quantos atletas. Nem quantas startups. Nem sequer quantas universidades. A pergunta é: Que aldeia estamos a construir à volta deles? Porque possuir talento e desenvolver talento são coisas profundamente diferentes. A natureza pode dar-nos velocidade.

Criatividade. Inteligência. Força. Imaginação. Mas transformar essas possibilidades em capacidade exige família, escola, instituições, mercado, liderança, investimento e comu- nidade. África sempre compreendeu o poder dessa interdependência. Talvez a modernidade nos tenha feito esquecer uma parte dela. Agora precisamos recuperá-la — não para regressarmos ao passado, mas para construirmos o futuro. Porque o talento pode nascer numa pessoa. Mas uma geração só se constrói em comunidade. E se queremos realmente saber qual será o lugar da África Austral no mundo nas próximas décadas, talvez devamos começar por uma pergunta muito simples: Quem está a construir a aldeia?

POR: EDGAR LEANDRO

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