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OPAÍS

“Fonte de vida” ganha proteção internacional

Jornal OPaíspor Jornal OPaís
23 de Janeiro, 2026
Em Opinião
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Tempo de Leitura: 3 mins de leitura
Apreendidas nove armas de fogo e detidos mais de cem suspeitos

Proteger uma zona húmida é sempre um gesto tardio. A diferença, neste caso, é que Angola decidiu fazê-lo antes que o silêncio fosse irreversível. O reconhecimento formal de uma zona húmida angolana — Lisima lya mwono, na língua local — como sítio Ramsar, hoje, é una vitória ambiental.

Daqui a vinte anos, porém, será interpretado de outra forma: como um teste. Não à biodiversidade, mas à capacidade humana de transformar um selo internacional num compromisso real com o território, as pessoas e o tempo longo da natureza.

Quando um ecossistema local passa a integrar uma convenção global, algo muda de escala. A água deixa de ser apenas recurso e passa a ser linguagem diplomática. O pântano, o rio lento, a planície inundável entram no vocabulário das nações.

Isso tem força simbólica. Mas também tem riscos. A história da conservação está cheia de exemplos em que o reconhecimento internacional protegeu mapas, mas desorganizou vidas. Angola carrega uma relação complexa com a sua terra.

Décadas de guerra, extração intensiva e urgências sociais criaram uma lógica de sobrevivência em que o futuro foi sempre adiado. As zonas húmidas, apesar de essenciais para a segurança alimentar, para o clima e para os ciclos da água, raramente foram tratadas como património. Sempre estiveram lá — silenciosas, produtivas, invisíveis. O que muda agora não é a natureza, é o olhar.

O problema começa quando o olhar vem apenas de fora. A linguagem da preservação global tende a ser técnica, normativa, bem-intencionada, mas distante. Fala de espécies, indicadores, metas. Fala menos de comunidades, de usos tradicionais, de economias informais que dependem diretamente desses territórios.

Se, daqui a vinte anos, este sítio Ramsar for lembrado como um espaço protegido e, ao mesmo tempo, esvaziado de gente, algo terá falhado. Há uma pergunta que o futuro fará com insistência: este reconhecimento foi um ponto de viragem ou apenas um gesto simbólico? Serviu para integrar conservação e desenvolvimento ou para congelar o território numa imagem idealizada da natureza? A resposta não estará nos relatórios internacionais, mas na vida quotidiana à volta da água: quem continua a pescar, a cultivar, a viver ali — e em que condições. O reconhecimento internacional é importante, mas não é suficiente. Ele abre uma porta.

O que decide o legado é o que se faz depois. Governança local, participação das comunidades, investimento em ciência aplicada, educação ambiental e alternativas económicas sustentáveis são o verdadeiro conteúdo do selo. Sem isso, a proteção transforma-se em retórica.

Daqui a vinte anos, quando alguém reler esta crônica, a pergunta já não será se Angola ganhou reconhecimento ambiental. Será se conseguiu transformar esse reconhecimento numa nova relação com o seu próprio território. A água, essa, continuará a correr. A dúvida é se aprenderemos, finalmente, a correr com ela — e não contra ela.

Por: JOSÉ MANUEL DIOGO

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