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Linguística aplicada às línguas bantu em Angola: desafios, responsabilidades e caminhos para o futuro

Jornal OPaíspor Jornal OPaís
29 de Dezembro, 2025
Em Opinião
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A discussão sobre as línguas bantu em Angola tem sido, ao longo das últimas décadas, marcada por diagnósticos repetitivos, discursos celebratórios e recomendações que raramente ultrapassam o papel. Não tem faltado descrição linguística; falta, sim, projecto nacional, coragem política e uma visão estratégica que coloque as línguas nacionais no centro do desenvolvimento científico, educativo e tecnológico.

Angola é um dos maiores laboratórios naturais de diversidade linguística da África subsaariana, com mais de 90% das suas línguas pertencentes ao tronco bantu, conforme demonstrado nos estudos estruturantes de Guthrie (1967–1971) e aprofundado pelo The Bantu Languages de Nurse e Philippson (2003). Todavia, esta riqueza não tem produzido impacto social proporcional. Ao contrário: as línguas bantu angolanas encontram-se à beira de uma crise funcional silenciosa — não porque faltem falantes, mas porque lhes falta espaço institucional, investimento científico e objectivos nacionais claros.

O Estado angolano produz periodicamente declarações sobre a importância das línguas nacionais, mas não cria os mecanismos necessários para lhes conferir poder funcional. Esta dissonância entre discurso e política efectiva está amplamente documentada em relatórios do ILN (2020) e por análises comparativas de política linguística africana (Heugh, 2018; Alexander, 2005).

A questão central é simples e científica: As línguas bantus não podem cumprir funções para as quais o Estado não cria condições materiais e institucionais. Apesar do valioso trabalho académico existente — produzido pela Universidade Agostinho Neto, Instituto Superior de Ciências da Educação, ILN e outros —, o conhecimento não é convertido em política pública operativa.

O país continua sem: um Instituto Nacional de Política Linguística com poder executivo, um Plano Nacional Linguístico com metas mensuráveis, uma estratégia de educação bilingue devidamente regulada, corpora digitais que permitam desenvolvimento tecnológico, programas estáveis de formação de especialistas em linguística aplicada. As línguas nacionais angolanas estão a perder: domínio formal, prestígio social, capacidade de transmissão escolar, representação institucional, valor tecnológico, presença mediática.

A literatura sociolinguística crítica (Nettle & Romaine, 2000; Batibo, 2005) demonstra que esta perda funcional é o primeiro passo para a erosão estrutural do sistema linguístico. Os estudos de Heugh (2018), da UNESCO (2016) e da African Academy of Languages mostram que a educação multilingue aumenta: o rendimento escolar, a capacidade cognitiva, a integração social, a aquisição eficaz de línguas oficiais.

A insistência angolana num modelo exclusivamente lusófono nas primeiras classes é, cientificamente, um erro. Não só produz insucesso escolar, como nega às crianças a entrada na literacia na sua língua materna — um processo que está mais do que comprovado na literatura internacional. A soberania cultural de um país não se mede pela quantidade de monumentos que constrói, mas pela capacidade de preservar, gerir e modernizar as suas línguas.

A transformação linguística do país exige medidas novas, fora dos discursos habituais. Eis um conjunto de propostas inéditas ou pouco debatidas em políticas públicas nacionais: A.

Criação de um Conselho Nacional de Política Linguística com autonomia científica Com especialistas independentes, poder regulatório e capacidade para acompanhar a execução de políticas linguísticas. Países como a África do Sul e o Senegal têm estruturas semelhantes.

B. Implementação de educação bilingue obrigatória nas três primeiras classes em zonas rurais Baseada em evidência científica robusta, esta medida teria impacto directo na redução do insucesso e abandono escolar.

C. Construção de um Arquivo Digital Bantu Angolano (ADBA) Plataforma pública online com: corpora textuais, gravações orais, dicionários digitais, dados morfológicos e sintácticos, ferramentas de processamento de língua natural. Sem digitalização, não haverá modernização linguística.

D. Programas de bolsas para especialistas angolanos em linguística computacional O futuro das línguas depende da tecnologia. Sem investigadores nesta área, Angola ficará linguisticamente dependente de empresas estrangeiras.

E. Revisão jurídica do estatuto das línguas nacionais Reconhecer formalmente funções administrativas locais em certas províncias seria um passo inovador e historicamente justo. A situação das línguas bantu não exige palmas; exige acção.

Não é aceitável que um país com tamanha riqueza linguística continue sem uma política pública articulada, sem digitalização efectiva, sem educação bilingue robusta e sem uma estratégia nacional clara.

A preservação e funcionalização das línguas bantu não é um luxo cultural: é um requisito de soberania, ciência e desenvolvimento nacional. O Governo de Angola — e particularmente os sectores da Cultura, Educação, Ensino Superior e Tecnologias — tem diante de si uma responsabilidade histórica.

Integrar as línguas nacionais na administração, na escola e na tecnologia não é apenas reparar uma injustiça; é projectar Angola para o futuro, reduzir desigualdades e fortalecer a identidade colectiva.

A ciência já demonstrou os caminhos. Os especialistas já produziram o conhecimento. O que falta é o Estado escutar, decidir e agir.

Por: Fernando Chilumbo

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