NAMBI WANDERLEY
*Fotojornalista, professor, au tor e investigador
A história das condecorações em Angola remonta ao período colo nial, constituindo um instrumento de reconhecimento militar, mas também de afirmação política e institucional. Segundo o Jornal do Exército Português, entre os primeiros militares condecorados em teatro de operações, após o início da guerra colonial, em 1961, encontravam-se António Saraiva Martins, Conceição Duarte, Abílio Pereira Cardoso e Afonso Pereira de Barros, distinguidos com a Medalha de Mérito Militar de 3ª Classe.
Na ocasião, o ministro do Exército, Mário José Pereira da Silva, afirmou: Quero condecorar esses bravos na própria frente de combate, sublinhando a dimensão simbólica do reconhecimento militar. Em 1971, o governador-geral de Angola, Camilo Rebocho Vaz, recebeu a Medalha Militar de Ouro de Serviços Distintos com Palma.
Neste contexto, merece particular atenção Joaquim do Nascimento, soldado indígena do Batalhão de Caçadores nº 3, agraciado, a 7 de Agosto de 1961, no Quartel-General de Luanda, com a Medalha de Cobre de Valor Militar com Palma. A distinção reconheceu a sua actuação durante uma emboscada ocorrida a 29 de Abril, na estrada Mucaba–31 de Janeiro, no Norte de Angola, da qual conseguiu esca par após combate corpo a corpo e uma marcha de três quilómetros através da mata.
O seu caso permite articular três dimensões fundamentais: a participação dos angolanos nas forças militares portuguesas, a hierarquia racial no Exército colonial e a utilização das condecorações como instrumentos de reconhecimento, fidelização e propaganda política. Por um lado, a distinção evidencia o reconhecimento formal do mérito individual de um militar angolano.
Por outro, revela uma contradição estrutural: embora os angolanos fossem importantes para o esforço militar português, permaneciam numa organização marcada por desigualdades raciais, particularmente no acesso aos postos de comando e ao prestígio institucional.
A fotografia de Joaquim do Nas cimento, publicada numa colecção oficial do Exército português, ultrapassa a condição de simples registo visual, constitui um documento histórico e uma construção social das relações de poder.







