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A mediação da leitura e a formação do leitor no contexto do ensino angolano

Jornal OPaíspor Jornal OPaís
8 de Junho, 2026
Em Opinião
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Tempo de Leitura: 4 mins de leitura
A mediação da leitura e a formação do leitor no contexto do ensino angolano

Sabe-se que um dos princi pais objectivos da educa ção e do ensino, seja em que país for, é contribuir para a formação de cidadãos capazes de responder positivamente aos de safios da vida social e às exigências da vida quotidiana, o que significa acompanhar as dinâmicas sociais emergentes, sem, contudo, esque cer o passado e os valores que ca racterizam a sua cultura.

Para o Ensino Primário, o Governo angolano, através da Lei n.º 17/16, de 7 de Outubro, define como um dos seus objectivos o desenvolvimento da capacidade de aprendizagem, tendo como base o domínio da leitura e da escrita. Nesta linha, sabemos da importância que a lei tura tem na formação de cidadãos críticos e reflexivos, na medida em que contribui para o desenvolvi mento da empatia.

Assim sendo, um dos problemas por nós observados, que trazemos como ponto fulcral desta reflexão, é o facto de se registar, no ensino angolano, uma grande dificuldade no que à mediação literária diz respeito, sendo que, em alguns casos, esta é considerada uma prática desconhecida. A isso está aliada não só a ausência do discurso literário nas aulas de Língua Portuguesa, mas, sobretudo, a falta de estratégias que garantam o ensino efectivo da lei tura e o consequente conhecimento do texto literário.

É possível observar esta realidade no Ensino Primário, no I e II ciclos do Ensino Secundário e até no Ensino Superior. Este facto, para além de demonstrar uma fragilidade na prática da leitura de textos na sala de aula, resultante da falta de criatividade na abordagem dos textos e autores literários angolanos, remete-nos também para a ausência de políticas funcionais que fomentem a leitura, apesar das intenções declaradamente nobres do Plano Nacional de Leitura 2024-2027 (PLA NALEITURA), que apresenta a lei tura como um elemento catalisador do desenvolvimento do capital humano e da qualidade do ensino em Angola.

O plano surge na sequência das linhas gerais da Política Nacional do Livro e da Promoção da Leitura. Foi aprovado através do Decreto Presidencial n.º 105/11, de 24 de Maio, encontrando-se igualmente respaldado na Lei n.º 17/16, de 7 de Outubro, a conhecida Lei de Bases do Sistema de Educação e Ensino. Neste sentido, embora olhemos sempre com as melhores intenções para iniciativas como esta, uma vez que revelam uma preocupação com a questão da leitura no país, acreditamos que o PLANALEITURA, pelo facto de considerar, nas suas páginas iniciais, a leitura como uma responsabilidade de todos e de atribuir ao Executivo e à sociedade civil a responsabilidade de criar condições para que os cidadãos, através do livro e da leitura, usufruam do património cultural e social e alcancem o conhecimento científico e técnico, deveria sugerir medidas mais concretas.

No entanto, sentimos que o projecto peca por deixar de lado um elemento essencial e insubstituível em iniciativas desta natureza: a mediação da leitura, que se constitui como um factor-chave no processo de formação de leitores. Diante disso, importa referir que a leitura não pode ser encarada como um simples instrumento de alfabetização ou competência linguística, como defende Rildo Cos son (2009). Para este autor, a leitura está associada à literatura, e esta tem o poder de “ampliar a percepção de mundo, provocar o questionamento e oferecer experiências humanas diversificadas”.

Essa perspectiva é reforçada por Teresa Colomer (2007), ao afirmar que formar leitores não é apenas desenvolver habilidades de descodificação, mas criar sujeitos capazes de estabelecer uma relação profunda, crítica e criativa com os textos e com a realidade. No entanto, pela ausência de medidas concretas, o PLANALEITU RA ignora quase por completo a fi gura do mediador de leitura, neste caso o professor, que, com intencionalidade pedagógica e sensibilidade estética, pode transformar o acto de ler numa verdadeira experiência formativa.

Deste modo, quando não se considera a mediação da leitura como um eixo estruturante, a leitura torna-se vulnerável e reduz-se a uma abordagem superficial do texto. Isto equivale a dizer que incentivar a leitura sem promover condições concretas para a sua apropriação crítica é o mesmo que distribuir livros sem garantir que sejam real mente lidos, compreendidos e ressignificados.

A experiência de leitura, quando não mediada, pode ser reduzida à obrigação curricular, sem prazer, sem envolvimento e, por isso, ineficaz no seu propósito forma dor. Ademais, parece-nos imperioso considerar que a mediação da leitura é ainda mais crucial em contextos como o angolano, marcados por desigualdades no acesso ao livro, ausência de bibliotecas escolares estruturadas e pouca formação contínua de professores. Ignorar esse factor contribui para a reprodução da exclusão cultural e para o fracasso de qualquer política pública que se pretenda transformadora.

O desenvolvimento de uma cultura leitora exige mais do que estatísticas e cronogramas: exige projectos literários vivos, mediação qualificada e compromisso com a formação de leitores sensíveis, críticos e activos. Esta proposta de mediação pode ser extensiva até mesmo às aulas de Língua Portuguesa no Ensino Superior, onde o ensino visa fazer com que os alunos superem as suas principais debilidades no domínio culto da língua e, com isso, obtenham êxito nas diversas unidades curriculares leccionadas e, consequentemente, alcancem sucesso na vida profissional.

Contrariamente ao padrão estabelecido pela escola angolana no que ao ensino da Língua Portuguesa diz respeito, o nosso anseio é que as aulas de Português se transformem, sobretudo a partir de deter minado nível de escolarização, nu ma oportunidade para que os alunos interajam com a realidade e, por intermédio da língua, aprendam a olhar para os diferentes textos lidos na escola, com particular destaque para os textos literários, como ver dadeiras unidades de pensamento. Pretende-se que, através deles, possam compreender o mundo à sua volta por meio de múltiplas interpretações, unindo e desunindo perspectivas com a ajuda do professor mediador.

Por: LEOVIGILDO ANTÓNIO

*Mestre em Ciências da Educação, na especialidade de Ensino da Língua Portuguesa

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