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A santidade fabricada pelos juízes da rua

Jornal OPaíspor Jornal OPaís
15 de Julho, 2026
Em Opinião
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Tempo de Leitura: 3 mins de leitura
A santidade fabricada pelos juízes da rua

Num momento em que o debate actual se centra na realidade plural das socie dades, com destaque para a necessidade de paz mundial e para o uso das tecnologias como instrumentos tanto de desenvolvimento como de guerras, observa-se, com preocupação, o progressivo enfraquecimento dos direitos humanos e dos deveres morais e cívicos.

Nesta senda, assiste-se à ascensão de moralistas sem moral, que admiramos: as pessoas proclamam tanto a liberdade como valor absoluto da acção humana, quando, na pureza das ocorrências, se sentem feridas no orgulho, sempre que alguns aplicam a pretensa liberdade dum jeito distinto ao que é expectável. Defendem o direito à escolha até ao instante em que esta não coincide mais com as suas preferências.

Sempre que um indivíduo for impelido pelo calor da emoção, importa que não perca o autocontrolo, que refreie o ânimo e tenha em atenção o provérbio: por falar se ganha, por falar se perde. Por isso, muita cautela é requerida, para que ninguém incorra em lapsos no que concerne ao respeito pelos direitos humanos, na consideração dos valores éticos, na apreciação da dignidade humana e das escolhas pessoais, inclusive, para não se verificar que ele próprio dispare no seu pé, sob a alegação de estar no exercício da liberdade de escolha, ao reservar, para si, o favor de certas benesses que condena nos outros. Pensamos que, em qualquer socie dade, algumas crises arrastam outras crises.

Se calhar, esta é a causa que leva as pessoas à cegueira total, à letargia moral, ao esquecimento das regras de convivência social e agem à base de comportamentos extremistas. Porque, como se sabe, as escolhas são movidas pela faculdade de raciocínio de cada um, nem sempre é pela ideia de recepção de benefícios ou de recompensas.

Esta perspectiva, muitas vezes, advém da convicção de que a cidadania livre só é aplicada na crítica pela falta de pão, na crítica pela sede de poder infinito, ou que a sua aplicação seja unilateralmente na indignação das redes sociais, na ostentação de uma cor partidária, ou no refrigério da imparcialidade permanente.

Assumir uma função numa instituição social, enquanto cidadão livre com direitos e deveres, implica também colaborar na construção desta. Há quem pergunte, por intenção não confessada, ao outro que decida conduzir o destino de uma organização, que decida assumir o comando do secretariado de uma associação filantrópica, que decida ser entusiasta de um partido político: o que é que esta instituição lhe dará em compensação? A pergunta parte da certeza de que toda a participação individual num organismo da sociedade requer uma transacção, como se a única causa da acção humana fosse legitimada por um privilégio que se recebe.

Porém, pela nossa visão, um dos indicadores de evolução humanitária, em qualquer sociedade, consiste em as pessoas se predispuserem a questionar ao contrário: o que é que eu, individualmente, posso fazer para a melhoria da organização da qual faço parte? O filósofo Immanuel Kant defendia que a qualidade humana tem consistência na faculdade de agir segundo princípios e não somente por interesses. Já Aristóteles de Estagira considerava a participação na vida pública como a expressão mais elevada da cidadania. Assim, ser membro de um órgão social é mais um acto de responsabilidade que oportunismo.

Leia mais em…

Por: ANDRÉ MAYOMONA

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