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Chamado, vocação e profissão: Ensinar é ministério?

Jornal OPaíspor Jornal OPaís
3 de Março, 2026
Em Opinião
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Tempo de Leitura: 4 mins de leitura
Chamado, vocação e profissão: Ensinar é ministério?

Angola, um país cuja extensão é de 1.246.700 km², está repleta de professores, quer sejam aqueles que se especializaram na área ou aqueles que, conduzidos pelas circunstâncias da vida, decidiram assumir um papel na educação, por amor a ela ou por meio de sobrevivência.

O fato remanescente é: Angola está repleta de professores. Nesta senda, quero ressaltar que, independentemente das múltiplas razões que conduzem um indivíduo ao ensino, tais razões não podem e nem devem estar acima das suas obrigações e deveres como educador.

Por exemplo, um indivíduo que olha para esta profissão (professor) como apenas um meio através do qual ele ganhará a sua sobrevivência, facilmente negligenciará a responsabilidade que lhe é incumbida (formar e apoiar), se houver atraso salarial.

Paulo Freire, em sua abordagem sobre educação e ensino, frisou que ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua própria produção ou construção (1996).

Aqui, o professor tem a responsabilidade de agir como facilitador, mediador entre o ambiente em que o aluno conhece e se encontra e o ambiente em que o aluno se sinta desafiado a produzir ou construir novos saberes, ou melhor, novas formas de manifestar o conhecimento.

Para Sampaio Herculano, ensinar é a missão explícita do docente, na qual este deve potencializar o receptor, aluno, através do emprego de um conjunto de métodos (2025). Em vista disso, mais do que olhar para esta profissão como um meio alternativo de ganhar o pão de cada dia, devemos olhar para ela como uma missão na qual a nossa seriedade influenciará fortemente a força intelectual de muitas gerações estudantis.

É neste estágio que já não olhamos para a palavra “professor” como uma profissão, mas como uma vocação. É aqui que velamos mais pelos nossos deveres e obrigações e procuramos aprofundá-los.

É aqui que as razões colaterais que nos levam ao ensino, ainda que frustradas, não nos farão esquecer que o foco principal é apoiar, potencializar. É aqui que entendemos que a nossa missão vai além de “dar aulas” [transferir conhecimento]; começaremos a “conduzir as aulas” [mediar o conhecimento].

Ensinar é ministério?

Para entendermos e termos a resposta para esta questão, devemos olhar para a etimologia da palavra ministério. A palavra ministério tem origem no latim ministerium, que significa serviço, ofício, função ou cargo. E aqui eu gostaria de fazer uma alegoria. Biblicamente falando, ministério é um chamado, é uma incumbência para a qual Deus convoca alguém para servir aos outros e trabalhar em prol do seu Reino.

Da mesma maneira que líderes religiosos, em seus exercícios ministeriais, têm a função de servir o povo de Deus e conduzi-lo corretamente ao Reino de Deus, é da mesma maneira que nós, professores, servimos aqueles que se sentam à nossa frente como alunos e os conduzimos corretamente à sociedade; ou seja, a estrutura de uma sociedade depende dos agentes que agem dentro dela, e muitos desses agentes passam em nossas mãos.

Dependendo da nossa posição, podemos estar a enviar antídoto ou veneno, expansão ou limitação, esperança ou frustração para esta sociedade. E se não olharmos para o ensino como um ministério, corremos o risco de inverter papéis… acharemos que a sociedade é que nos deve servir, enquanto nós é que devemos servir à sociedade.

Se não olharmos para o ensino como um ministério, estaremos mais preocupados em assinar o livro de ponto, sem mesmo ter entrado na sala de aula para ensinar. E, com isso, parafraseando a frase de Paulo Freire, esquecemos que, toda vez que deixamos de ensinar, também deixamos de aprender (Carta de Paulo Freire aos Professores, pág. 259).

O que queremos deixar patente como conclusão é que todo professor deve olhar para a sua profissão como uma vocação na qual ele é chamado a atingir uma missão que não tem como ser terceirizada. Esta missão é exclusivamente destinada aos professores. Negligenciar esta missão é falsificar o ensino. É ser desleal ao cargo que nós ocupamos.

Dizer que ensinar é ministério é entender que o ensino faz parte do nosso íntimo mais profundo e que estamos dispostos a gastar as nossas energias para mudarmos o testemunho negativo que a nossa sociedade apresenta. Como professores, somos chamados a servir de uma forma muito, mas muito especia. Ensinar é mais que profissão. Ensinar é vocação. Ensinar é serviço. Ensinar é ministério.

Por: MÁRIO FILOMENO

*Professor de Língua Inglesa

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