O Ministério da Saúde está a reforçar a formação especializada em Neurofisiologia Clínica, com o objectivo de aumentar a capacidade nacional de diagnóstico e acompanhamento de doenças neurológicas, no âmbito de uma estratégia de desenvolvimento de competências técnicas no Serviço Nacional de Saúde.
A aposta foi destacada durante o II Simpósio Angolano de Neurofisiologia, realizado nos dias 29 e 30 de Outubro, na Escola Nacional de Administração e Políticas Públicas (ENAPP), em Luanda, que reuniu especialistas nacionais e internacionais das áreas de Neurologia, Neurofisiologia, Fisiologia e Neurocirurgia.
O encontro contou com a presença do secretário de Estado para a Saúde Pública, Carlos Alberto Pinto de Sousa, em representação da ministra da Saúde, Sílvia Lutucuta, acompanhado pelo neurologista Job Monteiro, coordenador e gestor técnico da Unidade de Implementação do Projecto de Formação de Recursos Humanos em Saúde (UIP-PFRHS), e pelo neurocirurgião Djamel Kitumba, director-geral do Instituto de Especialização em Saúde (IES).
Durante os dois dias, os participantes abordaram os avanços científicos e tecnológicos aplicados ao estudo do sistema nervoso, com destaque para a electroencefalografia, a electroneuromiografia, a epilepsia refractária, a semiologia neurológica e a monitorização neurofisiológica intra-operatória.
Entre as intervenções, o professor Alberto R. M. Martinez destacou a importância de uma avaliação neurológica completa e sistematizada do paciente, considerando aspectos como a força muscular, os reflexos, a coordenação motora, o equilíbrio, a sensibilidade e as funções corticais superiores.
O especialista explicou que o exame neurológico permite identificar alterações do sistema nervoso, localizar possíveis lesões e orientar a realização de exames complementares, contribuindo para a definição da conduta terapêutica.
Outro momento de destaque foi a intervenção do professor Carlos Alberto Martins Júnior, que abordou a distonia e os princípios da monitorização neurofisiológica intra-operatória, técnica que permite acompanhar, durante determinadas cirurgias, a actividade de estruturas e vias nervosas importantes para a preservação das funções motoras e sensitivas.
Na abordagem sobre epilepsia, o professor Fernando Cendes, da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), no Brasil, apresentou os desafios relacionados com o diagnóstico e tratamento dos casos de difícil controlo terapêutico.
O especialista destacou a importância do electroencefalograma e da vídeo-electroencefalografia na identificação e classificação das crises epilépticas, bem como na diferenciação de episódios com manifestações semelhantes, como síncopes de origem cardíaca e crises não epilépticas de natureza psicogénica.
Fernando Cendes chamou igualmente a atenção para a epilepsia refractária, situação em que as crises persistem apesar da utilização adequada de medicamentos, sublinhando a necessidade de avaliações especializadas para identificar as regiões cerebrais envolvidas e estudar possíveis opções terapêuticas, incluindo a cirurgia em pacientes seleccionados.
A electroneuromiografia e a evolução da electroencefalografia também estiveram entre os assuntos discutidos. Job Monteiro abordou os padrões normais do electroencefalograma e a sua utilidade no diagnóstico da neurocisticercose, enquanto Miguel Bettencourt Mateus apresentou perspectivas sobre o futuro do EEG e do vídeo-EEG.
O simpósio contou ainda com intervenções de Bruno Gumiero, que partilhou a experiência de implementação da monitorização neurofisiológica intra-operatória, e de Fernando Prado da Silva, que abordou o papel dos técnicos especializados no acompanhamento dos sinais neurofisiológicos durante as cirurgias.
Durante o encontro foram igualmente apresentadas duas obras científicas: a quarta edição de “EEG na Prática Clínica”, da autoria de Maria Augusta Montenegro, Fernando Cendes, Marilisa M. Guerreiro e Carlos Alberto M. Guerreiro, e a publicação “Semiologia Neurológica”, assinada por Carlos Roberto Martins Jr., Marcondes C. França Jr., Alberto R. M. Martinez, Ingrid Faber e Anamarli Nucci.
Formação especializada
À margem da partilha científica, o Ministério da Saúde enquadra o simpósio numa estratégia mais ampla de formação de quadros nacionais. Neste contexto, 20 profissionais de saúde, provenientes de diferentes instituições e províncias do país, iniciaram, a 26 de Outubro, o primeiro ciclo de formação em Neurofisiologia Clínica.
O programa contempla componentes teóricas e práticas, com actividades no Complexo Hospitalar General-de-Exército Pedro Maria Tonha “Pedalé”, em Luanda, e uma vertente de cooperação técnico-científica com especialistas brasileiros.
A formação está centrada na electroencefalografia e na monitorização neurofisiológica intra-operatória e integra o Projecto de Formação de Recursos Humanos em Saúde (PFRHS), implementado pelo Ministério da Saúde, através da UIP-PFRHS, em articulação com o Instituto de Especialização em Saúde (IES), com financiamento do Banco Mundial.
O projecto tem como meta contribuir para a formação de cerca de 38 mil profissionais de saúde até 2028, entre médicos, enfermeiros, técnicos de diagnóstico e terapêutica e outros profissionais.








