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“O feiticeiro é o próprio adulto que acusa a criança”

Maria Custodiapor Maria Custodia
7 de Junho, 2024
Em Sem Categoria

Madalena Catarina, proprietária de um centro de acolhimento no município do Cazenga, não acredita que as crianças tenham feitiço, tal como lhes tem sido imputado, e sim que sejam os adultos acusadores os verdadeiros feiticeiros

Enquanto os pais, os avós, os pastores, os tios e outros familiares mais próximos acusam as crianças da prática de feitiçaria, o Centro de Acolhimento Santa Madalena, no distrito urbano do Kimaquieza, no município do Cazenga, que existe há 22 anos, as recebe de mãos abertas, sob o acompanhamento da fundadora, Madalena Catarina, de 70 anos.

Madalena vê o anjo que há em to- das as crianças e nunca notou nenhum comportamento anormal nas “bênção” (como carinhosamente as trata). “Os feiticeiros são os próprios adultos que atribuem estes nomes feios, fazem as crianças sofrer.

A sociedade como não tem o espírito de sabedoria está a perder o amor pela criança”, sustenta. A entrevistada é de opinião que chamar estes nomes às crianças acarreta consequências psicológicas, causa frustração e provoca isolamento. Para ela, os pais e outros familiares estão a trazer muitos problemas na vida das crianças.

Cinco crianças estão nesta situação naquele centro, com idades compreendidas entre os 6 e 12 anos, mas preferiu manter as mesmas sob anonimato, para permitir que esqueçam este passado triste. Neste momento, o centro conta com um total de 84 crianças, sendo 40 meninas e 44 rapazes.

“Eu não sei como é que uma criança pratica feitiço, se é criança. Aconselho as famílias que acusam as crianças de prática de feitiçaria a verem estas como uma dádiva de Deus, e nós devemos dar atenção, amor, ter paciência, amar muito e perdoar sem limites”, sustenta.

O centro tem acolhido estes pequeninos dando-lhes educação, direito à brincadeira, alimentação, vestuário e, acima de tudo, muito amor e atenção. “Me sinto muito alegre quando as crianças me chamam de mãe ou avó, estas crianças têm sido uma bênção na minha vida”, assegurou a responsável. Boa parte deste grupo já não aceita voltar no seio familiar, prefere viver no centro, porque, apesar das dificuldades, encontra aqui uma família, paz, sossego e irmandade.

Este tipo de prática é um crime contra a criança

O director da Acção Social do município de Kilamba Kiaxi, Imperial Santana, considera que todo tipo de comportamento que lesa a criança constitui um crime. Quem tiver o conhecimento de famílias que abusam da fragilidade dos menores deve denunciar às administrações municipais, ao INAC, à Polícia Nacional e a todas instituições que advogam pelo direito dos pequenos.

Deste modo, este tipo de prática constitui um crime contra os direitos fundamentais da criança, segundo aquele responsável, e as pessoas que assim agem de- vem ser punidas.

“As famílias que pensam desta forma, ou sonham que uma criança vai enfeitiçar alguém, isto é mera utopia. Nós sabemos que o crime de feitiçaria é um crime ideológico e não faz fé aquilo que são os procedimentos normais, devem ser punidas as pessoas que praticam este acto”, disse. Apela aos pais e a sociedade, de modo geral, a não cometerem agressões contra as crianças, porque as crianças não merecem esta atitude dos adultos.

Meninos deixados à porta do centro

Para o director do centro Arnaldo Janssen, Ângelo José Cachimbamba, é importante que a sociedade manifeste indignação e repúdio às pessoas que acreditam que as crianças sejam feiticeiras. Não condeno quem acredita nestas práticas, mas as crianças devem ser poupadas da má-fé dos adultos, tanto pelos pais, quanto pela sociedade em geral.

O seu centro, localizado no Palanca, em Luanda, tem o registo de dez crianças acusadas pela prática de feitiçaria, e muitas foram deixadas na porta de entrada pelos seus familiares. O centro recebe crianças do sexo masculino de várias idades e, actualmente, conta com mais de 70 rapazes.

“Encontrámos os meninos em péssimas condições de saúde”, disse, tendo acrescentado que o amor ao próximo deve ser a bandeira de todo ser humano, pois só assim vamos aprender a se colocar no lugar dos outros e a sentir a sua dor.

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