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A arte prática de administrar o município: reflexões sobre a política à escala humana

Jornal OPaísPor Jornal OPaís
6 de Junho, 2025
Em Opinião
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Tempo de Leitura: 5 mins de leitura
A arte prática de administrar o município: reflexões sobre a política à escala humana

A administração municipal representa a expressão mais próxima do poder público na vida concreta dos cidadãos. É no município — esse território de pertença e convivência — que o acto de governar adquire feições mais humanas, pois exige não só competência técnica, mas sensibilidade política, ética e um profundo respeito pela dignidade da pessoa. Governa-se, no município, não para abstrações, mas para pessoas com nome, rosto, aspirações e carências.

Nesse sentido, a administração local é uma das formas mais autênticas e exigentes do exercício político. Inspirada por uma tradição que remonta a Aristóteles, esta reflexão recorda que a cidade é uma criação natural do homem destinada a proporcionar-lhe uma vida boa.

O bem comum, neste contexto, não é um ideal abstrato ou imaterial mas, uma construção diária que se materializa na iluminação pública que funciona, na água potável que chega às torneiras, no posto de saúde que acolhe, na escola que ensina, na estrada que permite o ir e vir.

O município é, pois, a moldura concreta do bem comum, e o administrador que assim o entende reconhece que sua missão é simultaneamente técnica e moral. A pluralidade territorial é uma realidade incontornável.

O mesmo município pode conter realidades urbanas, suburbanas e rurais, cada qual com as suas exigências próprias. A boa governação municipal começa por reconhecer estas diferenças e por nelas assentar a acção política.

Na cidade, lugar de oportunidades e exclusões, a administração deve articular crescimento com justiça, evitando a segregação e promovendo uma mobilidade equitativa. A urbanização não pode servir aos interesses do capital em detrimento da dignidade dos moradores.

A cidade moderna só será justa se planeada com sensibilidade social, com respeito ao meio ambiente e com inclusão espacial. O subúrbio, essa zona de transição entre o campo e a cidade, sofre frequentemente de esquecimento administrativo.

É um território de promessas incumpridas, de ausência de equipamentos e de precariedade nos serviços. Exige, por isso, políticas firmes de inclusão territorial, com investimentos em transporte, saúde, educação e urbanização que respeite a identidade local.

O mundo rural, por sua vez, guarda saberes antigos, vínculos comunitários e práticas sustentáveis, mas sofre de isolamento e despovoamento. Administrar bem o campo é assegurar que nele se possa viver com dignidade, com acesso a serviços e com oportunidades que não forcem a migração forçada para os centros urbanos. Em termos estratégicos, a administração municipal deve actuar sobre sete dimensões fundamentais, que se entrelaçam e se reforçam mutuamente.

A primeira é o ordenamento do território, que deve promover justiça espacial. Nenhum cidadão deve viver em bairros clandestinos, sem saneamento, sem acesso a transporte ou sem título de propriedade. O direito à cidade — e, por extensão, ao território — é a base de uma cidadania plena.

O urbanismo deve servir à equidade, não à especulação. A segunda dimensão refere-se às infra-estruturas básicas, sem as quais não há vida digna. Água, luz, estrada, esgoto e recolha de resíduos não são apenas serviços técnicos: são expressões materiais do respeito que o poder público deve ao cidadão. Um município que ilumina avenidas enquanto bairros inteiros permanecem às escuras não é moderno: é injusto.

A terceira dimensão é a dos serviços públicos — educação, saúde, segurança e cultura. Estes serviços são o rosto visível do Estado na vida do povo. O seu funcionamento eficaz, mas não mercantilizado, é a mais poderosa resposta ao ciclo de exclusão que atinge os mais pobres.

O município deve garantir que todos tenham acesso a esses direitos, sem favoritismo nem clientelismo. Segue-se a mobilidade, entendida como o direito efectivo de circular com dignidade. O transporte público não deve ser privilégio, mas política de inclusão.

Caminhar e pedalar, por exemplo, são formas sustentáveis de mobilidade que também exigem vias seguras e planeamento adequado. A mobilidade é um instrumento de justiça territorial. A quinta dimensão é o desenvolvimento económico local.

O município deve fomentar iniciativas que promovam o empreendedorismo, a economia solidária, a agricultura familiar e a atracção de investimentos éticos. A prosperidade local não pode depender exclusivamente do Estado central.

Quanto mais autonomia económica possuir o município, maior será a sua capacidade de gerar empregos e de manter a juventude no território. A sustentabilidade ecológica constitui a sexta dimensão.

O município deve ser o guardião da natureza local — das nascentes, dos solos, da biodiversidade. A justiça intergeracional exige que não se comprometa o futuro em nome de lucros imediatos.

Uma administração justa é também uma administração ambientalmente responsável. A última dimensão é a da participação cidadã. Não há governação legítima sem escuta activa e permanente dos cidadãos. Instrumentos como conselhos municipais, orçamentos participativos e audiências públicas são fundamentais para que o cidadão deixe de ser mero destinatário de decisões e se torne co-autor do destino colectivo.

Administrar é, antes de tudo, dialogar. Neste quadro, o papel do administrador municipal exige mais que competência técnica. Ele é, por excelência, um servidor da polis, alguém que representa simultaneamente a autoridade e o cuidado.

O bom administrador é aquele que não governa para as estatísticas, mas para os rostos que encontra nas ruas. Que conhece os bairros não apenas pelos mapas, mas pelas suas gentes.

Que escuta antes de decidir, e que decide com coragem e humanidade. Tal administrador deve ser austero no gasto, mas generoso no propósito. Firme na norma, mas sensível na aplicação.

A sua vocação não é a de mandar, mas a de servir com lucidez, com ética e com visão. Governa com o coração voltado para o povo e com a mente orientada para o bem comum.

A administração municipal, seja em territórios urbanos, suburbanos ou rurais, é uma das tarefas mais nobres e exigentes da vida política. É no município que a vida real acontece: onde se vive, se trabalha, se sofre e se ama. É ali que o Estado deve estar presente com mais intensidade, não como máquina burocrática, mas como força de cuidado, justiça e esperança.

O cidadão não exige milagres; deseja respeito. Deseja uma rua com nome, uma casa com número, uma escola funcional, um posto de saúde acolhedor, uma vida sem humilhação. E é dever da administração tornar essa esperança concreta, com políticas públicas enraizadas na escuta, na técnica e na compaixão.

A política que se deseja para os municípios é, pois, aquela que transforma a vida comum num espaço de dignidade partilhada, onde todos tenham lugar, voz e horizonte. Luanda, aos 04 de Junho de 2025.

Por: JOÃO BAPTISTA KUSSUMUA

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