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Sophia Bucco: “Nós queríamos transmitir às pessoas verdades sobre as mulheres que o mundo finge não existirem”

Jornal OpaisPor Jornal Opais
23 de Março, 2018
Em Cultura
0
Tempo de Leitura: 6 mins de leitura

Juntamente com outras quatro actizes, durante cinco dias, esteve em palco, na Casa das Artes em Talatona, com a peça “Monólogos da Vagina”, da autoria da norte americana Eve Enseler e adapatada pelo encenador angolano Miguel Hurst. Sophia Buco foi uma das protagonistas desta peça e, nesta entrevista, revela, entre outros assuntos, os tabus existentes em relação à designação da obra, bem como a realidade teatral angolana, em vésperas de mais um “Dia Mundial do Teatro”, a assinalar-se a 27 de Março

Entrevista de: Jorge Fernandes
Fotos: cedidas

Cinco dias, cinco mulheres e cinco exibições. Qual é o balanço que faz do trabalho apresentado?

O Balanço que faço é positivo. Os objectivos pelos quais trouxemos a peça de volta à Angola foram alcançados. Graças a Deus, saiu exatamente como queríamos, digo o Miguel Hurst e eu, por ser a pessoa que trabalhou comigo no projecto da Buc’os Produções e o Projecto Mukange Teatro.

Passaram-se precisamente sete anos para que a peça voltasse à cena. A que se deveu todo esse tempo?

Em 2011, a produção dos “Monólogos da Vagina” foi da responsabilidade da Semba Comunicação e da Glamour em Festa. Na altura, entrei apenas como actriz e o Miguel Hurst como director e encenador.

No final da exibição, em 2011, todos sentimo-nos familiarizados com o texto e com o elenco, tanto que entre nós, colegas, criouse uma verdadeira amizade. Passados alguns anos, o público foi sempre cobrando de nós, pelas redes sociais e nas ruas. Daí, começamos então a sentir a necessidade de reencenar os “Monólogos da Vagina”.

Aliás, nós também o queriamos. E, como, há um ano, já tinha a empresa criada, estava pronta para novas aventuras, o Miguel Hurst falou comigo, porque eu tinha condições para fazer esta produção e os contactos necessários, era certo que tudo daria certo.

Em Novembro de 2017 começamos com a produção e, finalmente, em Março de 2018, na Casa da Artes, o projecto foi apresentado ao público durante cinco dias.

Pode-se notar a redução de seis para cinco e a introdução de dois rostos “novos” no elenco. A que se deveu a saída das demais e como foi convencer a entrada das duas novas integrantes?

Em 2017, quando o Migel Hurst e eu estavamos a tratar das condições para termos de volta aos palcos o “Monólogos da Vagina”, a nossa ideia era manter o elenco, mas aconteceram situações alheias à nossa vontade que nos levaram a indicar outras actrizes para o elenco.

Como quais?

A Erica Chissapa Bicho estava grávida, na altura, e disse-nos que não poderia fazer parte desta temporada. A Petra Oliveira, por questões de trabalho, não foi possível. A Petra Nascimento, por razões religiosas, optou por ficar fora do projecto. Logo, tínhamos apenas três actrizes disponíveis. Assim, convidadamos duas excelentes actrizes que já conhecemos há muitos anos e cujo perfil profissional apreciamos bastante. Particularmente, eu queria que fossem elas, eu sentia que elas iam de encontro ao que a produção precisava. E a escolha recaiu para a Edusa Chindecasse e a Naed Branco.

Em relação à primeira apresentação, que barreiras tiveram que ultrapassar para impor um título que de per si ainda constitui um grande tabu e provoca polémicas?

Muito sinceramente, eu sinto como se tivessémos recuado no tempo. Vejamos, em 2011 foi feito um excelente trabalho com esta peça, uma mega produção da Semba e da Glamour. Foi uma grande luta, tanto que, na altura dos ensaios, um representante do Ministério da Cultura contactou- no s para visionar os textos, com receio do que iríamos apresentar ao público.

O público teve contacto com o conteúdo e quase foi um choque. Passaram-se sete anos e, infelizmente, ainda estamos numa luta enorme. Algumas empresas inclusive, nacionais, fecharamnos as portas porque não queriam unir os seus nomes ao “Monólogos da Vagina”, alegando “que o nosso conteúdo fala sobre o órgão genital da mulher”. Os tabus permanecem porque a nossa cultura educacional é acompanhada pelo preconceito. Por isso, temos ainda um imenso caminho pela frente, e este passo só é o começo.

Através da vossa performance pude notar que foram desvendados alguns mitos e verdades sobre a “Vagina”. Concorda comigo? Quando dizem, por exemplo, num dos actos, que a vagina é um elemento como outro qualquer do nosso corpo, assim como as mãos ou o cotovelo. O que pretendiam exactamente transmitir?

Sim, concordo, é verdade que a vagina é uma parte do corpo, como a mão, o cotovelo, o coração, as pernas etc. Isso nunca foi segredo, fomos sempre obrigadas a não dizer, porque, para muitos, não se deve dizer, com medo de que isso fosse algo mau. Mas, como é que um órgão que participa na geração da vida pode ser visto como horrível? As pessoas ficaram mais esclarecidas, mais aliviadas em relação a este falso problema. Temos que chamar as coisas pelos próprios nomes. Só queríamos transmitir às pessoas a verdade que o mundo finge não existir sobre as mulheres. E nós passamos a mensagem e esta chegou aos nossos receptores.

Esta peça está recomendada a pessoas de que faixa etária? Sendo que “discutiu-se”, por exemplo, cenas como do primeiro período menstrual que ocorre entre os 11 e os 14 anos?

A peça é recomendada aos maiores de 16 anos de idade. No palco, também apresentamos uma das fases mais importantes da vida da mulher, que é a menstruação, um momento sensível e de grandes descobertas que dos pais requer muita atenção. Há meninas que começam a menstruar muito cedo, aos 10 anos, 11, 12, outras aos 14 e etc…, e muitas delas não estão ainda preparadas para essa realidade. Cabe à mãe passar segurança à filha em relação a esse processo. Tanto que na peça, nós exemplificamos as diferentes reacções das meninas quando entram na fase da menstruação.

Outros aspectos além deste?

Sim. A questão do estupro e a violação, que, infelizmente, ainda é muito patente no nosso país. É uma dura e triste realidade que na peça foi perfeitamente retratada. É uma pena que, hoje, crianças e mulheres são violadas e espancadas.

Na peça faz-se recurso a uma linguagem cuidada. Isso foi propositado ou podemos dizer que é destinada a um público especializado e a espectadores ligados a um meio social específico?

“Os Monólogos da Vagina” não é uma obra de criação angolana, mas uma obra internacional, da norteamericana Eve Enseler. A ideia era trazer essa obra internacional e não fugir da ideia da autora. Não consideramos que seja obra exclusiva para a elite. Ela destina-se a todas as classes sociais. Nós precisamos de manter mais contacto com obras internacionais, porque isso também ajuda o nosso teatro a ganhar outras dimenções. O teatro não é uma arte fechada, o teatro é global . Temos que olhar para outras realidades e não somente a nossa.

Depois de Luanda, pode-se aguardar por próximas apresentações?

Muito em breve, Luanda receberá mais uma temporada dos “Monólogos da Vagina”. Iremos também até Benguela. Recebemos convites de dois países irmãos, Cabo Verde e Moçambique, para representarmos Angola em dois festivais de renome em África. Mas, para realizarmos tudo isso, precisamos de patrocínios que nos ajudem a levar esta adaptação angolana aos grandes festivais de África e do Mundo.

A de 27 de Março assinala-se o dia Mundial do Teatro. Como é que olha para essa arte em Angola?

Para começar, o país precisa de olhar para os actores como uma força de trabalho. Também queremos viver da nossa arte, para melhor servirmos os amantes da arte e vivermos com dignidade. Não somos pedintes e merecemos respeito. Se passarmos pelo Aeroporto Internacional 4 de Fevereiro, raras são as imagens publicitárias com o rosto de actores angolanos.

Os vôos da TAAG deveriam transmitir filmes também de realizadores nacionais, vender mais e mostrar ao mundo o que é feito em Angola e pelos angolanos. A nossa cultura também tem teatro, o teatro é a escola dos actores.

A falta de espaços para exibições ainda é o principal problema ou existirão outros também?

A luta têm sido as salas de teatro. “PRECISAMOS DE SALAS DE TEATRO COM URGÊNCIA, POR FAVOR”. Escreva isso em letras garrafais. O teatro afasta os jovens da frustração e dos problemas sociais que Angola vive. O teatro educa homens para a vida. O Ministério da Educação deveria incluir no curriculum escolar a disciplina de teatro como produto educativo.

O que é que acha que mais deve ser feito?

Os empresários e o Estado deveriam investir em salas de teatro, e olhar o teatro também como um produto comercial. Devem surgir mais homens e mulheres como a realizadora e cineasta Maria João Ganga, que, apesar de tudo, apostou no tearo e hoje tem a melhor sala de teatro de Angola, que é a Casa das Artes, localizada em Talatona. O valor que se cobra para um show de música, devia ser o mesmo que se pede para um show de artes cénicas.

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