ALBERTO KIZUA
*Tenente-General
Há livros que se lêem com a cabeça e há livros que se lêem com cicatrizes. “Os Dez Dias que Abalaram o Mundo”, de John Reed, publicado em 1919, é da segunda categoria. É um manual de Ope rações de Informação escrito 100 anos antes de existir o conceito. John Silas Reed (1887-1920) era o oposto do revolucionário de cartaz.
Era um burguês de Portland, formado em Harvard, jornalista boémio e de grande coragem física. Cobriu a revolução de Pancho Villa no México em 1914 e a I Guerra Mundial na Europa. Em Setembro de 1917, desembarcou em Petrogrado com a sua esposa Louise Bryant, sem saber que iria assistir ao fim de um mundo e ao nasci mento de outro. Durante dois meses, viveu dentro da revolução.
Entrou no Palácio de Inverno com os Guardas Vermelhos na noite de 25 de Outubro, sentou-se no II Congresso dos Sovietes de Toda a Rússia quando Lenine declarou “Todo o poder aos Sovietes”. Escreveu a quente, entre tiroteios, com fome e frio de -29 graus. Por isso Lenine o recomendou.
O seu livro teve prefácio de Lenine, escrito em 1919: “Li este livro com o maior interesse e com uma atenção nunca vista. Recomendo o, sem reservas, aos operários de todo o mundo.” John Reed morreu de tifo em Moscovo, a 19 de Outubro de 1920. O Governo bolchevique deu-lhe funeral de Estado. Está enterra do junto à muralha do Kremlin, na Praça Vermelha.
Visitei a campa numa excursão enquanto estudante numa das Academias Militares da URSS. É o único americano enterrado como herói da União Soviética. Um americano burguês enterrado como herói soviético, com prefácio de Lenine. Só a História consegue estas ironias. E só John Reed conseguiu contá-las a tempo.
O resultado é o maior repertório de guerra de informação da história moderna. Reed percebeu, antes de todos, três verdades que hoje ensinamos nas Academias Mi litares: PRIMEIRO: O DOCUMENTO VIVO VALE MAIS QUE A ANÁ LISE. Reed não resume os decretos de Lenine sobre Paz, Pão e Terra. Ele transcreve-os na íntegra.
É arquivo primário. Num mundo de narrativas digitais, o documento original é a arma decisiva. SEGUNDO: A REVOLUÇÃO DE CIDE-SE NA LOGÍSTICA E NA RE TAGUARDA. O génio de Reed foi dar voz à base logística da revolução, que os Estados-Maiores ignoram: ao sol dado da frente que recua porque a sua linha logística de 1.000 km colapsou no Inverno russo, à população urbana de Petrogrado sujeita ao racionamento provocado pelo esforço de guerra total, ao operário da fábrica Putilov em greve por exaustão industrial.
Reed mostra, com documentos, que o Governo Provisório de Kerenski não caiu em Outubro ape nas porque os Bolcheviques eram fortes. Caiu porque, do ponto de vista estratégico, já tinha perdi do os seus três centros de gravidade clássicos identificados por Clausewitz: a capacidade de fazer a paz externa, a capacidade de ali mentar a retaguarda e a capacidade de distribuir a terra ao campo nês-soldado. Em 1917, sem essas três respostas, nenhum Governo, com ou sem apoio internacional, se sustentava. TERCEIRO: QUEM DOMINA A NARRATIVA DA RUA, DOMINA A CAPITAL.
Kerenski governava a partir de gabinetes, com comunicados oficiais e reconhecimento dos Alia dos. Lenine e Trotsky controla vamos sovietes, as fábricas, as estações de caminho-de-ferro e os quartéis. Controlavam a rua. A LIÇÃO DO BRASIL E DE AN GOLA Na doutrina militar, as Forças Armadas não fazem política partidária, mas têm o dever de compreender a política do Estado, por que são o seu garante último.
O que se observou no Brasil en tre 2022 e 8 de Janeiro de 2023 é Jo hn Reed ao contrário, mas com as mesmas regras de informação. Foi um dos primeiros casos na história contemporânea em que a mobili zação e a coordenação ocorreram em tempo real através de platafor mas digitais e redes sociais. Durante meses, travou-se uma batalha total pela narrativa: desa creditar o processo eleitoral antes dele acontecer.
É o que Reed descreve em Petrogrado: quem perde a batalha da informação já entrou derrotado na batalha real. Por que o Brasil não colapsou? E por que Angola garantiu a transição de 2017 em paz? Em ambos os casos, as Forças Armadas mantiveram-se no seu papel constitucional, como instituição do Estado, não como partido. Foram o factor de estabilidade.
Em Angola, em 2017, as Forças Armadas Angolanas, sem interferir no processo eleitoral que por lei é da competência da Comissão Nacional Eleitoral e da Polícia Nacional, garantiram o perímetro estratégico do Estado, permitindo que a vontade do povo expressa nas urnas fosse respeitada em paz.
A lição é clara: hoje, o primeiro tiro já não é de canhão. É de desinformação. Por isso, este é um livro que todos devemos ler.








