JACINTO FIGUEIREDO
Jornalista e Professor
Este artigo analisa as dinâmicas de sobrevivência e adaptação ecológica desenvolvidas por uma família na província do Uíge, Angola, no ano de 1992, em pleno contexto de isolamento decorrente do conflito armado pós-eleitoral.
Com base no testemunho directo do processo de ocupação da fazenda Caxelengue, o texto relata a implementação do projecto intitulado “Quintal da Fome”, concebido e liderado pelo patriarca Manuel Figueiredo.
A investigação demonstra de que modo a articulação entre saberes tradicio nais, exploração ecossistémica sustentável e diversificação agrícola permitiu a transição de um estado de vulnerabilidade extrema para a autossuficiência e a geração de excedente produtivo. O ano de 1992 representou um mo mento crítico na história contemporânea de Angola, caracterizado pelo reacender das hostilidades militares e pela rupturadas cadeias normais de abaste cimento.
Diante da iminência da fome e do isolamento civil, as populações forçadas ao refúgio viram-se na contingência de elaborar estratégias pragmáticas de subsistência.
Foi neste cenário que, após quatro semanas de refúgio na aldeia Matuta, a família liderada por Manuel Figueiredo iniciou um itinerário de reconhecimento pelas propriedades ancestrais da região, passando por locais como Quinxinga, Mbasasa e Quimanimani, até fixar o centro das suas operações na fazenda Caxelengue.
A escolha deste lo cal não foi ao acaso: Caxelengue apresentava condições fisiográficas excepcionais para a implementação do plano de sobrevivência baptizado como “Quintal da Fome”, assentamento funda mentado no trabalho simultâneo em três frentes complementares: a caça, a pesca e a agricultura familiar. A vertente cinegética e de recolha de recursos naturais respondeu à necessidade imediata de suprimento proteico e vitamínico.
Diante da escassez de meios convencionais, a família recorreu a técnicas tradicionais de engenharia de caça, destacando-se a montagem do sistema conhecido como Kibato. Como relata o testemunho: “Construímos uma armadilha chamada Kibato, que visava construir uma longa vedação de paus onde, de 2 metros em 2 metros, tínhamos uma armadilha denominada Buila”.
Este dispositivo revelou-se decisivo para a segurança alimentar do grupo, pois, segundo o relato, “esta armadilha durante muito tempo foi a verdadeira fonte de carne de caça. Nela, todo o tipo de ani mais que passava por aí morria na armadilha: os kissacas, cambuiji, javalis, jiboias, gazelas, ratos”, dentre outros. A exploração da fauna e da flora ajustava se rigorosamente à sazonalidade e às características microclimáticas do Uíge.
Na baixa do Hungo mantinham-se armadilhas para a caça de cambuiji, enquanto, nos meses mais frios de Junho, Julho e Agosto, a actividade voltava-se para a caça de morcegos gigantes. Por sua vez, a transição para Setembro e Outubro marcava a época de recolha intensiva de cogumelos selvagens, abundantes nas matas locais.








