Muitos angolanos fazem-me a mes ma pergunta, por vezes em tom de desabafo: “Para quê guardar kwanzas se a inflação os con some? É uma dúvida legítima. Quando os preços sobem mais rápido que os salários, deixar dinheiro parado na gaveta ou numa conta corrente sem ren dimento parece assistir, mês a mês, à lenta perda do poder de compra. Mas não poupar é uma perda garantida.
O desafio não é decidir se vale a pena poupar, mas saber onde e como prote ger o que se ganha. A inflação não actua como um imposto visível. Age como um desgaste silencioso. Se os pre ços sobem 1% num mês e o seu dinheiro fica sem render, vo cê perdeu 1% de capacidade de compra. A meta não é enriquecer com a poupança. É travar a erosão.
E, em Angola, isso passa por es colher ferramentas financeiras que, pelo menos, tentem acompa nhar a realidade, em vez de ignorá las por frustração. O primeiro pas so é mudar a mentalidade: poupar não é o que sobra no fim do mês. É o que se separa no início, antes que as despesas do dia-a-dia levem tudo.
Para colocar esse princípio em prá tica, o método que venho trazendo a esta coluna assenta em três gestos simples. Primeiro: Defina o objectivo e o prazo. É um fundo de emergência? Uma despesa escolar daqui a seis meses? Um pequeno investimento? O prazo dita a ferramenta. Segundo: Compare o que os bancos oferecem.
Não olhe apenas para a percentagem anunciada. Pergunte: “Esta taxa de juro está próxima ou acima da tendência actual da inflação?” Se a resposta for positiva, está a preservar valor. Se for negativa, ainda está a perder poder de compra, mas a um ritmo mais lento. Terceiro: Automatize. Configure transferências mensais fixas para uma conta poupança ou um depósito a prazo.
A constância vence a intenção. É aqui que entram a disciplina e a atenção aos detalhes. Evite esquemas informais ou promessas de retorno fácil. Se um negócio garante lucros altos sem risco, não é investimento; é armadilha. Prefira sempre instituições reguladas, leia as cláusulas de levanta mento antecipado e entenda a diferença entre liquidez e rentabilidade.
Dinheiro de emergência precisa de estar acessível. Dinheiro de médio prazo pode ficar bloqueado em troca de um juro melhor. Combine a ferramenta com o seu calendário, não com o conselho do vizinho.
Poupar em kwanzas não é vencer o sistema da noite para o dia. É construir, tijolo a tijolo, uma rede de segurança que permita respirar quando o imprevisto bate à porta. Um kwanza guardado hoje, colocado com critério, é um kwanza que ainda trabalha para si amanhã.
Por: ABRAÃO HUNGULO
Economista e consultor







