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OPAÍS

“Negócio do estacionamento” coloca em risco vidas de automobilistas em Luanda

Domingos BentoPor Domingos Bento
22 de Março, 2024
Em Sem Categoria
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Tempo de Leitura: 6 mins de leitura
“Negócio do estacionamento” coloca em risco vidas de automobilistas em Luanda

Agressões físicas e verbais, quebra de vidros e furo em pneus estão entre os actos de violência que muitos automobilistas passam, quando se recusam a pagar valores nas mãos de grupos de jovens que privatizam espaços públicos para estacionamentos. A polícia diz ter feito o seu trabalho na detenção dos infractores, enquanto o GPL reconhece o problema e projecta a construção de mais parques

Trauma de estacionar na rua é o sentimento que o senhor Malebo Joaquim carrega, há mais de três anos, depois de ter a viatura quebrada no calor de desentendimento com um grupo de jovens no Largo do Ambiente, em Luanda. A confusão começou quando o senhor, de 51 anos de idade, pro- curava por uma vaga de estacionamento. Enquanto girava a cidade, na manhã de um dia útil de trabalho, Malebo foi confrontado pelo grupo que se disponibilizou a guardar a viatura num espaço público, à beira da estrada.

Longe de pensar que seria cobrado pelo estacionamento, por ser espaço público, senhor Malebo tentava sair do lugar, já depois de cumprir o seu expediente, quando foi interpelado pelo grupo que exigia o pagamento de mil kwanzas por ter guardado a viatura num espaço que é público por um período de 4horas. “Enquanto dizia para um deles que não tinha dinheiro, outro membro do grupo passou por trás e furou-me os pneus. Isso gerou numa confusão que, até hoje, quando vou à cidade já sigo consciente que tenho de pagar por uma coisa que é pública. É um absurdo”, lamentou.

Placa roubada

Já Ndoa António, funcionário público, viu a placa do carro roubada no largo da Maianga por se recusar a pagar o lugar onde estacionara a viatura, em Abril do ano passado. “É que, mal havia terminado de estacionar, os jovens cercaram- me a exigir que tinha que deixar 500 kwanzas naquele momento e outros restantes teria de dar assim que regressasse. Achei um absurdo e não aceitei. Mas ainda assim deixei a viatura. Quando regressei já não encontrei a placa nem o grupo que me havia abordado.

Os donos da placa

Confusão que termina em prejuízo e agressões físicas ou verbais tem sido o dia-a-dia de mui- tos automobilistas que, no centro de cidade de Luanda, lutam por vaga nas horas normais de expedientes. É que, na escassez de parques de estacionamento, automobilistas são confrontados com grupos de jovens que se oferecem a cederem espaços públicos que eles guardam para, em troca, ganharem entre 200 e 500 kwanzas de automobilistas que se deslocam ao trabalho ou para tratar outros tipos de expedientes. O “negócio” atrai, diariamente, mais jovens e adultos que, na busca do lucro fácil, guardam, para si, vagas de estacionamentos públicos e que geram confusão, quando os automobilistas se recusam a pagar-lhes algum valor. Manuel Poeira, 28 anos, está na actividade há oito anos.

O que ele chama de placa (local de trabalho), é a zona dos Coqueiros onde todos os dias guarda viaturas em espaços públicos em troca de valores que variam muito dependendo do modelo e marca do veículo. Regra geral, refere, o preço a pagar pelos automobilistas varia entre os 200 e os mil kwanzas. “Embora existirem papoites que largam mesmo até 2 mil. Mas esses são já os pais grandes, que não deixam mal e que só conduzem grande máquinas”, frisou. Manuel jura de pé juntos que nunca partiu viatura de clientes, mas admite que na “placa” já houve confusão que terminou em caso de polícia. “A confusão só começa quando os próprios clientes não pagam ou tentam fugir. Aí o Kota já sabe. Nem todos temos o mesmo temperamento. Mas se você estacionar e pagar, normalmente, não haverá confusão porque nós mesmo é que controlamos a placa”, disse.

“A gente não sai da nossa casa para vir brincar”

Por seu turno, João Tchicwende, que vive em Cacuaco, disse que todos os dias vai ao Largo do Ambiente para facturar com o negócio do estacionamento. Valores entre 7 e 12 mil kwanzas é o que ele diz levar para casa, diariamente, com a cobrança de espaços para estacionamento. Refere que encontrou na actividade o seu emprego do qual diz não abdicar, dado o lucro diário que serve para sustentar a família. “A gente não sai da nossa casa para vir brincar. Limpamos a placa todos os dias. Por isso é que exigimos pagamento. A própria Polícia sabe que só fazemos confusão quando o cliente não quer pagar o combinado”, referiu.

“O país não tem emprego”

Ezequiel Gaúcho, Mário Domingos e Paulo Jorge são outros jovens que sobrevivem da actividade. Os três definem a actividade como fonte de receita e afirmam que as confusões só existem por falta de entendimento dos automobilistas. Paulo Jorge tem 42 anos de idade e é residente no município do Cazenga. O mesmo admite já ter sido arrolado em casos de Polícia por conta de confusão na sua placa. Ele alinha, igualmente, na ideia que as confusões só acontecem porque os automobilistas tentam complicar um acordo já pré-definido. “O país não tem emprego, irmão. E se a pessoa faz esse trabalho é para não ir roubar. Então não podem os motoristas nos fazerem de parvos. Ninguém vai controlar o teu carro à custa de nada”, notou

Escassez de parques no centro da confusão

Automobilistas ouvidos pelo jornal OPAIS referem que a escassez de parques públicos é que força os homens do volante a recorrerem a esses jovens. Apontam que estacionar em Luanda, sobretudo em período de expedientes, não é uma tarefa fácil, pelo que, qualquer vaga que surgir é disputada de forma renhida e sob comando deste grupo de jovens que, regra geral, estão associados a consumo de drogas e álcool. O parque subterrâneo do Largo do Ambiente, que poderia ser dos pontos de descongestionamentos no que diz respeito à procura de vagas, encontra-se encerrado há anos. Na cidade de Luanda, sobretudo na parte baixa, existem cerca de 20 parques públicos de estacionamento, sendo que a maior par- te destes têm a gestão sob responsabilidade de agentes privados. Entretanto, devido a queixas constantes de automobilistas que reclamavam dos preços, esses agentes privados receberam, do Governo Provinvial de Luanda, a orientação para passarem a cobrar o valor de 50 kwanzas por hora, ao contrário dos anteriores 200.

Apesar dessa normativa, ainda assim, muitos parques continuam a cobrar valores acima dos 500 kwanzas por cada hora de estacionamento, situação que tem forçado muitos automobilistas, na impossibilidade de pagar, a recorrer as vagas públicas controladas por estes jovens. O administrador adjunto para a Área Técnica do município de Luanda, Cláudio Revelas, reconhece o problema e disse que o mesmo deriva da falta de mais espaços para estacionamentos. Referiu que os 20 parques estendidos ao longo da baixa de Luanda não é suficiente para responder à demanda, a julgar pela quantidade de cidadãos que, diariamente, escalam o centro da cidade para tratar dos mais diferentes assuntos. Conforme referiu, o GPL está a projetcar a possibilidade de criação de novos parques, para dar resposta às necessidades dos cidadãos. “Estamos a ver essa possibilidade para ajudar no tráfego e na mobilidade ao nível do casco urbano”, destacou.

Enquadramento

Outrossim, Cláudio Revelas adiantou que, no âmbito do processo de reorganização dos parques públicos, os jovens que cobram dinheiro aos cidadãos por vaga de estacionamento serão enquadrados neste programa para que tenham emprego digno e dentro das normas. “Pensámos, num futuro próximo, enquadrar esses jovens no processo de gestão e cobrança dos parques. Isso vai fazer com que tenham emprego digno”, assegurou.

Por seu lado, o porta-voz da Polícia Nacional em Luanda, Nestor Goubel, afirmou que o órgão tem recebido, diariamente, queixas de muitos cidadãos que se dizem lesados por esse grupo de jovens que procedem a cobranças irregulares de valores aos automobilistas. Sem avançar números concretos, o oficial da Polícia referiu que, regularmente, são feitas detenções de jovens que praticam a prática com recurso a meios violentos. Nestor Goubel aconselhou ainda os condutores a deixarem os seus automóveis em parques seguros, nem que para isso paguem um pouco mais de modo a protegerem a integridade física e os seus bens materiais. “Temos feito o nosso trabalho enquanto autoridades, porque esses miúdos não estão a autorizados a procederem à cobrança de espaços públicos. Mas também os automobilistas devem ter a cultura de deixar em locais seguros e com segurança os seus meios”, apelou.

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