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Zungueira como símbolo de resistência social: uma abordagem sobre o poema “zungueira” na obra “ar que textura” de ac khamba

Jornal Opaispor Jornal Opais
20 de Novembro, 2024
Em Opinião
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Tempo de Leitura: 3 mins de leitura
Zungueira como símbolo de resistência social:  uma abordagem sobre o poema “zungueira” na obra “ar que textura” de ac khamba

O presente texto é conduzido numa visão dentro da sociologia da literatura, pois estuda o elemento social na obra numa relação espaço-obra, sendo a obra considerada a ilustração de determinadas vivências sociais.

Neste sentido, Neto (2017, p.18) afirma que estes estudos devem ser feitos numa perspectiva de interiorização do elemento social como elemento estruturador da obra. Ar que textura é uma obra de poesia concreta que se afirma como a pioneira para esta nova geração de escritores.

O poema que nos serve de estudo configura-se como um manifesto contra a agressão social que as zungueiras enfrentam na sua rotina diária. Entende-se por agressão social o conjunto de práticas verbais ou físicas que visão desmerecer a posição social de um indivíduo mediante a sua actução ou posição social, levando-os, até mesmo, a exclusão social, quer de forma activa ou passiva.

O lexema zungueira designa mulher que faz vendas ambulantes de mercadoria diversa para o sustento próprio ou da família. O fenómeno da zunga que se instalou na sociedade angolana é o resultado, hipoteticamente, de alguns fenómenos sociais angolanos, como: a falta de escolas, políticas de emprego, o elevado custo de vida, entre outros problemas que têm causado a proliferação da venda ambulante no país.

Por se tratar de uma venda despadronizada e ambulante, exige das suas fazedoras, o domínio total da localidade onde se encontram (rua, bairro ou até mesmo distritos) para maior rentabilidade diária. Portanto, estes caminhos, muitas vezes, servem-se de mártires para a sua agenda laboral.

Como se pode ver nos versos do poema: Zungueira tem geografia na mão Corre / (i) cai O verso “cai”, no poema, não o compreendemos como queda, na sua forma analógica, pois representa o conjunto de dificuldades que as mulheres zungueiras apresentam no seu dia laboral, como o caso da sua condição social que, muitas vezes, a coloca às situações de desigualdade social.

Portanto, este verso, que termina a primeira estrofe, dialoga com o verso seguinte que abre a outra estrofe, apresentando, após as dificuldades, os perigos que as zungueiras enfrentam, fenómenos estes que as coloca como heroínas, servindo-se de símbolo de resistência contra a agressão social que macula a sua rotina laboral.

Como se pode ver no verso abaixo: no pé um cão Nos dias que correm, acompanhamos, por meio dos órgãos de comunicação privados e públicos, as notícias sobre a brutalidade policial quando estes lutavam combater contra as vendas desordenadas no país. Houve muitos relatos de zungueiras que perderam a vida por causa dos seus ofícios, um assunto que choca com a sociedade e que, de certa forma, desvincula a ordem social, causando mais conflito ainda.

Se analisarmos o verso “ no pé um cão”, enquadraremos a brutalidade que o sujeito poético enfrenta no seu dia. Embora mantendo um causador não activo, podemos, a partir da nossa análise espacial, trazer as questões da brutalidade policial, o que, a partir do verso do poema, nos dá a perceber a fraqueza e a morte do sujeito poético, pois no pé um cão faz perceber o real perigo que enfrentam e pagam com brutalidade policial e a desordem dos fiscais que, muitas vezes, prendem negócios com fins lucrativos e não para mantiverem a ordem que se deseja.

O poema fecha com o verso que serve como bálsamo para o alívio das dores do sujeito pouco. O verso “ na mão um pão” apresenta a zungueira como símbolo de resistência social que, apesar das dificuldades que passa, consegue conservar em posse o conjunto de bens de primeira necessidade. Estes bens de primeira necessidade apresentadas por nós estão expressos, simbolicamente, pelo lexema pão.

Pão, enquanto alimento de primeira necessidade, pode significar todos os bens adquiridos pela mulher zungueira que servem de suporte primário para si, seus filhos ou mesmo esposo; estes bens podem ser alimentação, educação, saúde ou vestuário.

Já o lexma mão, enquanto membro do corpo humano que serve para pegar objectos, no poema apresenta-se metaforicamente para significar posse dos bens de primeira necessidade (representado pelo pão, como já o dissemos acima) que a mulher zungueira consegue no seu dia como sustento para cobrir as necessidades familiares ou não.

 

Por: KHILSON KHALUNGA

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