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OPAÍS

Quem ganhou mesmo o CAN 2025?

Jornal OPaísPor Jornal OPaís
20 de Março, 2026
Em Opinião
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Tempo de Leitura: 4 mins de leitura
Apreendidas nove armas de fogo e detidos mais de cem suspeitos

Há desilusões que chegam com estrondo, como quem quer mesmo ferir, e acabam por aba lar convicções profundas. A decisão da Confederação Africana de Futebol de retirar o título do Senegal e atribuí-lo ao Marrocos no CAN 2025 é uma ferida aberta na essência do futebol africano. Sempre acreditei, como muitos de vocês, que o carácter das pessoas se revela nas suas acções.

Foi por isso que a chegada de Patrice Motsepe à liderança da CAF trouxe uma lufada de esperança. Um empresário de sucesso, um rosto novo, uma promessa de ruptura com um passado marca do por suspeitas de corrupção generalizada. Muitos de nós quisemos acreditar que aquele seria o início de uma nova era, onde o mérito falaria mais alto do que os bastidores. E talvez por isso a queda seja ainda mais dura.

Durante anos, a CAF foi sinónimo de desconfiança, na época sob liderança de Issa Hayatou. Decisões suspeitas, favoritismos velados, um sistema que parecia servir mais a interesses pessoais e de grupos do que ao próprio futebol. Quando o sul-africano Motsepe assumiu, parecia que finalmente o futebol no continente iria reconciliar-se com a sua própria essência, aquela que nasce nos campos de terra batida, nos bairros, no talento puro e indomável dos seus filhos.

Mas o que aconteceu neste CAN levanta fantasmas que julgávamos enterrados no passado. Quem acompanhou a competição com olhos de ver viu uma selecção marroquina fortíssima, organiza da, talentosa e competitiva.

Mas também viu decisões da arbitragem estranhas, momentos de dúvida sistematicamente resolvidos contra os adversários da equipa anfitriã, um VAR que parecia mais um instrumento de validação do poder do que de justiça desportiva. E depois veio a final.

Aquela final, que devia ser o apogeu do futebol africano, transformou-se num episódio difícil de explicar ou, pior, fácil demais de suspeitar. O árbitro da RDC, cuja actuação deixou mais perguntas do que respostas, tornou-se o rosto visível de algo muito maior e mais preocupante: a sensação de que o jogo já não se decide apenas dentro das quatro linhas. O tal artigo 84 invocado pela Confederação Africana de Futebol é, à partida, claro: abandono de campo implica derrota. Mas o futebol não é um laboratório de regras aplicadas de forma mecânica.

É um organismo vivo, feito de contexto, de decisões humanas, de bom senso, e é exactamente aí que a contestação ganha força. Se apenas sete jogadores do Senegal abandonaram o terreno, então há uma questão fundamental: podemos falar de abandono colectivo da equipa? Ou tratou-se de um episódio parcial, momentâneo, que exigia gestão disciplinar dentro do jogo e não uma sentença definitiva como esta? Mais ainda, se a própria lei já previa o desfecho em caso de abandono, por que razão o árbitro não encerrou imediatamente a partida? No meu entendimento, essa é a incoerência que fragiliza toda a decisão.

Porque num jogo de futebol há uma cadeia lógica e, quando isso não acontece, abre-se espaço para algo perigoso: a sensação de que a decisão não foi tomada no momento certo… mas sim construída depois. E quando as decisões são construídas depois, o futebol deixa de ser previsível nas suas regras e passa a ser vulnerável às interpretações convenientes. Humanizar as leis não é enfraquecê-las; pelo contrário, é fortalecê-las.

É garantir que elas servem ao jogo, e não que o jogo se torne refém de uma leitura fria e, neste caso, aparentemente contraditória. Porque há mais perguntas que ficam inevitavelmente no ar: se o abandono foi considerado suficiente para derrota, por que o jogo continuou? Se o jogo continuou, é porque não houve abandono total, então, com base em quê se aplica a sanção máxima? E, se houve margem de interpretação, por que ela só apareceu agora no conforto do gabinete e não no relvado? No fundo, o que está em causa não é apenas um artigo ou uma decisão, é a coerência do sistema.

O futebol aceita perder, o que não aceita é não entender porquê. E quando jogadores, equipas e adeptos deixam de compreender a lógica das decisões, instala-se algo mais grave do que a derrota, instala-se a desconfiança e, sem confiança, não há competição que sobreviva. Esta decisão administrativa pesada e extrema da CAF, que declarou abandono por parte do Senegal e atribuiu derrota de 0-3 na final do CAN, é um precedente perigoso e um aviso ousado a todas as ou tras selecções africanas: o campo pode já não ser o único palco onde se decide o resultado dos jogos. Mas quando a confiança morre, o talento africano perde o seu palco.

Fala-se já, nos corredores e nas conversas de bar, na possibilidade de boicotes, de rupturas, de uma CAF fragmentada, regressando a velhas propostas de divisão entre “África negra” e “África branca”. Pode parecer exagero, mas a história ensina-nos que as fraturas começam sempre com pequenas fis suras… até que um dia já não há como reparar o buraco. E, no fim de tudo, não é apenas o Senegal que perde um título; é o futebol africano que perde um pouco da sua essência.

Por: Luís Caetano

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