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OPAÍS

Quando o mundo cabe na praça do Kikolo: a globalização vista de baixo

Jornal OPaíspor Jornal OPaís
23 de Maio, 2025
Em Opinião
Quando o mundo cabe na praça do Kikolo: a globalização vista de baixo

A globalização costuma ser explicada com gráficos, cimeiras e tratados assinados em salas climatizadas. Mas basta uma manhã de sábado na Praça do Kikolo, em Luanda, para perceber que há uma outra globalização mais concreta, mais barulhenta, mais urgente a acontecer fora dos manuais de Relações Internacionais. Aqui, o mundo não se resume à ideia de uma aldeia digital. É um mercado a céu aberto.

No meio dos corredores apertados, sacos plásticos volumosos encostados às bancadas, vozes que gritam promoções em kimbundu, português, lingala e francês, sente-se que há algo maior do que o simples comércio.

A azáfama não é só económica é cultural, linguística, simbólica. A Praça do Kikolo é o ponto de encontro entre o que Angola é, o que consome, e o que o mundo despeja. É onde a globalização veste chinelos gastos, fala gíria de rua e sabe negociar como ninguém.

Ela não chega aqui vestida de termos técnicos nem de tratados bilaterais. Vem camuflada em jeans “made in China”, cremes com rótulos em francês, arroz importado do Vietname, telefones “de segunda mão” do Dubai, brinquedos com instruções em árabe, e sonhos muitos sonhos embalados com preço a negociar. Há quem pense que globalização é conversa de diplomatas, de reuniões em Genebra, de decisões do FMI.

Mas aqui, ela também é o som da música nigeriana que embala os vendedores, é o sotaque congolês misturado ao kimbundu, é a mulher angolana que aprendeu a dizer “second hand ” com naturalidade para vender fardos de roupas usadas vindas da Europa.

Na praça, o mundo não é uma vitrine organizada. É um emaranhado de produtos, pessoas e possibilidades. Uma sandália usada que já pisou ruas italianas agora percorre as ladeiras de Cazenga.

Uma mochila feita para um aluno em Berlim guarda livros de uma menina em Viana. Um computador danificado em Londres volta à vida pelas mãos de um jovem técnico da Samba, que aprendeu a consertar tecnologia sem cursos, mas com talento.

Este é o cenário onde se trava, todos os dias, a batalha entre o que vem de fora e o que se faz cá dentro. O artesão com colares de sementes africanas disputa clientes com bijuterias brilhantes da China.

Aos poucos, o que é nosso vai sendo empurrado para o canto, ofuscado pelo brilho importado ainda que de segunda mão. E não se pode ignorar o lado sombrio desse mercado vibrante.

A informalidade que sustenta milhares também esconde vulnerabilidades profundas. Há redes de exploração, venda de produtos contrafeitos, ausência de segurança social, e uma convivência perigosa entre sobrevivência e ilegalidade.

A marginalidade que ali cresce, muitas vezes tolerada ou negligenciada, é também um reflexo da exclusão sistémica de muitos angolanos do circuito económico formal. A praça é, ao mesmo tempo, solução e sintoma.

Muitos dirão que este é o lado marginal da globalização. Mas talvez seja o mais real e mais vivo. Aqui ninguém analisa índices económicos, mas todos sabem quando o dólar sobe: os preços disparam, os fardos demoram a chegar, a comida encarece.

Quando um contentor atrasa no porto, é ali que o prejuízo aparece primeiro. E quando a moeda desvaloriza, não é apenas nos bancos é no prato, no bolso, no suor. A Praça do Kikolo é um espelho cru da posição periférica de Angola no sistema internacional: consumimos o que os outros já não querem, adaptamos o que os outros descartam.

Mas é também o lugar onde se reinventa o uso, se prolonga a vida dos objectos, se cria com pouco. É um laboratório da sobrevivência urbana, onde se aprende a resistir com criatividade.

Ali, panos africanos são transformados em moda por costureiras empreendedoras. Jovens que nunca pisaram em uma universidade dominam tecnologias, aprendidas ao ver outros trabalhar.

Mulheres fazem da rua o seu escritório e da voz, uma arma de negociação. É ali que muitas famílias garantem o pão. É ali que o improviso vira estrutura. E acima de tudo, há dignidade.

Dignidade no trabalho informal, na persistência de quem acorda cedo, na coragem de quem enfrenta sol, poeira, empurrões e ainda sorri. A praça é uma escola de relações humanas, um espaço de intercâmbio económico, cultural e simbólico.

Um lugar onde a globalização é vivida, sentida e reinventada todos os dias. Globalização vista de baixo é isso: um mundo inteiro a passar dentro de uma praça. Sem status, sem glamour mas com força, engenho e urgência. Um mundo que não aparece nas estatísticas, mas que grita todos os dias nas esquinas de Luanda.

A pergunta é: será que estamos a participar deste mundo como actores estratégicos ou apenas como figurantes num palco que nos ultrapassa? Talvez a resposta esteja mesmo ali, no meio dos sacos plásticos, dos gritos, da poeira, da marginalidade e da esperança. Onde o mundo, ainda que remendado, cabe inteiro. E pulsa com o coração de quem não desiste.

Por: MARGARIDA TATI

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