O concurso Unitel Estrelas ao Palco tem sido, ao longo dos anos, um verdadeiro viveiro de descoberta de novos talentos. Vencedores ou não, muitos dos concorrentes que passaram pelo programa conseguiram afirmar-se no mercado nacional e internacional, à semelhança de Ary, Matias Damásio, Anderson Mário e tantos outros que encontraram naquela que é uma das mais concorridas provas de imitação do país uma porta de entrada para a música.
Trata-se de um concurso que permite aos concorrentes demonstrar habilidades vocais e performativas, reproduzir, dentro do possível, características físicas, gestuais e comportamentais dos artistas que representam. E, ao longo das suas edições, o programa tem revelado vozes que, depois da experiência da imitação, construíram carreiras próprias.
Mas, nos castings desta edição, o inusitado aconteceu. Alguém sem aparente veia artística, muito menos com reconhecidas capacidades vocais ou performativas, acabou por conquistar a atenção do público precisamente por fazer tudo ao contrário daquilo que seria esperado de quem se propõe imitar uma estrela como Michael Jackson. Refiro-me ao denominado “Michael Jackson do Bié”. Nada tenho contra a sua pessoa, muito menos contra a notoriedade que, de forma inesperada, está a conquistar. Pelo contrário.
O que lhe aconteceu é um daqueles fenómenos curiosos em que alguém chega ao espaço público não necessariamente pelo talento que pretendia demonstrar, mas pela espontaneidade, pelo humor involuntário e pela forma peculiar como conseguiu cair na graça das pessoas. E, neste caso, há uma máxima que se aplica perfeitamente: no aproveitar está o ganho.
O próprio já terá percebido isso. Em entrevista ao canal de YouTube Flypodcast, afirmou ter sido injustiçado — ou, nas suas palavras, “batotado” — por entender que não cometeu qualquer erro durante a sua apresentação. Independentemente da avaliação que se faça do seu desempenho, uma coisa é inegável: saiu dos castings com uma notoriedade que dificilmente imaginaria alcançar.
É verdade que, ao longo dos anos, houve concorrentes em diferentes concursos musicais cuja escolha suscitou dúvidas. Muitos deles, contudo, acabaram por justificar a aposta com talento, trabalho, voz e performance, conseguindo afirmar-se no mercado.
Definitivamente, não parece ser esse o caso do “Michael Jackson do Bié”. E talvez seja precisamente por isso que deva aproveitar esta oportunidade. Se existe vontade de permanecer nas lides musicais e transformar a actual exposição numa carreira, há um caminho evidente a percorrer: estudar música, aprimorar a voz, aprender dança e trabalhar a performance.
Porque talento sem trabalho dificilmente se sustenta. E, mesmo quando o talento não é evidente à primeira vista, o trabalho, a disciplina e a vontade de aprender podem produzir resultados surpreendentes. O momento que vive merece ser desfrutado.
As idas ao Mussulo, as limpezas faciais, os duplos hambúrgueres e as demais experiências que a fama repentina lhe tem proporcionado fazem parte da festa. Mas a festa, como se sabe, um dia acaba. O desafio começa depois.
O importante não é apenas chegar, mas conseguir permanecer. A fama conquistada pela surpresa pode ser tão rápida a desaparecer quanto foi a surgir. Hoje, o inusitado virou “estrela”; amanhã, poderá deixar de despertar a mesma curiosidade.
Por isso, mais do que maravilhar-se com os holofotes, convém agarrar as oportunidades que estão a surgir. Transformar a popularidade em aprendizagem, a exposição em trabalho e o momento de graça numa possibilidade real de crescimento.
Disciplina, foco e humildade serão fundamentais. Saber ouvir e aprender com os erros também. Se assim fizer, quem sabe o fenómeno que hoje diverte o público não poderá, amanhã, surpreendê-lo por razões bem diferentes? Afinal, no aproveitar está o ganho





