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OPAÍS

Pedro Van-Dúnem “Loy”: o jovem de Catete que conquistou até Washington

Paulo Sérgiopor Paulo Sérgio
29 de Agosto, 2025
Em Opinião

Vencer a batalha contra o subdesenvolvimento, melhorando as condições sociais e o nível de vida do povo, tem sido o maior desafio dos angolanos ao longo dos últimos 50 anos.

Uma luta que não se trava apenas no campo económico e social, mas também no diplomático, onde figuras notáveis carregaram sobre os ombros o peso de representar um país ainda em busca de si. Entre esses nomes, um destaca-se com brilho singular: Pedro de Castro dos Santos Van-Dúnem, o comandante Loy.

Nascido em Fevereiro de 1942, em Cassoneca/Catete, actual província de Icolo e Bengo, Loy é quase um desconhecido na sua própria terra natal. No entanto, os seus feitos colocam-no entre os jovens revolucionários e pan-africanistas que cedo entregaram a juventude a uma causa maior: o sonho de uma Angola livre e desenvolvida.

O despertar da militância deu-se ainda na adolescência, enquanto estudante, em Luanda. Aos 18 anos, juntou-se a amigos numa travessia para o Congo, onde se incorporou na guerrilha do MPLA, movimento no qual já militava.

Pelo que não teve dificuldades de ingressar na 2.ª Região Político-Militar, em território congolês, que era o quartel-general de definições estratégicas da luta de libertação.

A sua permanência ali, porém, foi breve: em 1963, integrou um dos primeiros grupos de jovens enviados para formação na Europa de Leste, com a missão de adquirir conheci- mentos académicos e militares para servir Angola tanto no comba- te ao colonialismo como na futura construção nacional.

Nessa altura, o nome de Pedro Van- Dúnem já se encontrava na mira dos operacionais da Polícia Internacional de Defesa do Estado (PIDE — DGS), que o classificava como jovem distinto, com forte capacidade de liderança e motivações políticas sólidas.

Enquanto estudante, longe da correria imposta pela dinâmica de guerrilha, em Moscovo tornou-se o cenário ideal onde outras facetas suas viriam à tona.

Decidiu dar vazão ao seu amor pela música, que se encontrava dormente desde que havia saído do “finado” conjunto Kimbambas do Ritmo, fundado em 1960, em que foi um dos vocalistas e guitarrista.

É assim que, para além da formação em Electrónica e do treino militar, Loy deu voz e ritmo ao conjunto musical Nzaji (“luz”, em Kimbundu) ao lado de José Eduardo dos Santos, Maria Mambu Café, Amélia Mingas, Mário Santiago, Fernando Assis e tantos outros.

As canções traduziram em notas o anseio de independência de uma geração inteira e a esperança por dias melhores. De regresso à frente de combate, exerceu funções militares nas extintas FALPA. Mas a sua marca maior surgiria no campo diplomático.

Antes mesmo de assumir a pasta das Relações Exteriores, já tinha servido como ministro da Coordenação das Províncias e, mais tarde, da Energia e Petróleos.

Nesses cargos, demonstrou aquilo que o académico e Prémio Nobel da Paz búlgaro Elias Canetti descreve, em Massa e Poder, como qualidades essenciais de um chefe da diplomacia: prestígio, confidência, capacidade técnica e disciplina no segredo de Estado.

Não surpreendeu os seus colegas de Governo e companheiros de partido, portanto, que em 1989 José Eduardo dos Santos o tenha nomeado ministro das Relações Exteriores.

A escolha ocorreu num momento decisivo: Angola acabara de abalar o mito da invencibilidade do exército sul-africano, abrindo caminho para o fim do apartheid e para a independência da Namíbia. Nesse mesmo ano, em discurso na Assembleia Geral da ONU, Van- Dúnem desenhou com clareza o futuro que vislumbrava para a região austral de África: paz, desenvolvimento e cooperação regional. Os testemunhos de diplomatas confirmam a estatura do homem.

O embaixador Manuel Eduardo Bravo recorda que, em 1989, à margem das exéquias do imperador Hirohito, Loy abriu com Mobutu Sesse Seko um canal de diálogo que seria fundamental para os Acordos de Gbadolite.

Daí seguiram outros encontros de trabalhos entre ambos, que visavam também aprofundar a cooperação bilateral, aproximando os dois Governos que mantinham relação pouco cordial, devido ao apoio que o Zaire prestava à UNITA.

Segundo testemunhos, sempre que se encontravam, a conversa entre Loy e Mobutu decorria com empatia, fluidez, respeito mútuo e rela- tiva informalidade, mas também houve momentos de tensão.

Outro episódio, narrado por João Miranda, na sua autobiografia, dá conta do temperamento inflamado de Mobutu, por causa de declarações feitas pelo ministro Loy, em Portugal, sobre o estado das relações entre Angola e Zaire.

O Mobu- tu não gostou e chegou a expulsar da sua sala Venâncio de Moura, en- tão vice-ministro das Relações Ex- teriores, num momento em que se havia para lá deslocado como portador de uma mensagem do Presidente José Eduardo dos Santos.

O episódio, que poderia ter descarrilado negociações, terminou em reconciliação diplomática, graças à habilidade de Venâncio de Moura em desarmar a crise. Se no plano africano o seu nome ecoava, nos Estados Unidos tornou-se uma grande referência.

Razão pela qual, deve-se reservar um lugar de destaque para si, quando se fala das relações contemporâneas entre os EUA e Angola.

Antes mesmo de assumir a pasta do MIREX, ele, enquanto ministro da Energia e Petróleos, já havia realizado uma série de acções, com o apoio de amigos, com vista à promoção do bom nome e da imagem de Angola, como um bom destino para investimento e financiamento e como um parceiro incontornável para o alcance da paz, segurança e desenvolvimento de África.

Em Abril de 1983, como ministro da Energia e Petróleos, Van-Dúnem e o ministro do Interior, Manuel Alexandre Rodrigues “Kito”, quebraram o gelo que separava Washington de Luanda, tornando- se os primeiros governantes angolanos a reunir-se oficialmente com membros do Executivo americano, na sede do Departamento do Estado da Casa Branca.

Segundo o embaixador Manuel Eduardo Bravo, o lobista norte- americano John Sassi, que trabalhou para Angola nos anos 80 e 90, confidenciou que Pedro Van- Dúnem era respeitado em Washington e falava a linguagem que os americanos compreendiam e apreciavam.

Depois da diplomacia, onde estabeleceu corredores que têm tido elevada serventia até nos dias de hoje, assumiu outros desafios no plano interno: o de governador (administrador) do Banco Nacional de Angola e, mais tarde, ministro das Obras Públicas e Assuntos Urbanos, cargo que renunciou em 1996 por razões de saúde.

Quando se esperava que fosse recuperar, um ataque cardíaco provocou uma viagem sem volta ao comandante Loy, a 23 de Setem- bro de 1997. Hoje, em tempo de paz e com a diplomacia económica como bandeira, a melhor homenagem ao comandante Loy e àqueles que doaram as suas vidas em prol da Pátria, é levar avante os programas que melhorem de facto a vida do povo angolano.

Porque já houve angolanos que abriram portas no mundo, e um deles, o jovem de Catete que soube falar a língua de Washington, chamava-se Pedro de Castro dos Santos Van-Dúnem.

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