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O parceiro imprevisível: uma análise das inconsistências da política externa dos EUA

Jornal OPaísPor Jornal OPaís
19 de Março, 2026
Em Opinião
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Tempo de Leitura: 4 mins de leitura
O parceiro imprevisível: uma análise das inconsistências da política externa dos EUA

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A recente escalada do conflito no Médio Oriente, desencadeada pelos acontecimentos de 1 de Março de 2026, veio mais uma vez lançar uma luz dura sobre as complexidades das relações internacionais. Embora o foco imediato esteja no custo humanitário e na instabilidade regional, a crise sublinha um padrão recorrente e profundamente consequente na política externa americana: uma tendência para a imprevisibilidade que frequentemente mina alianças de longa data e acordos diplomáticos. Para nações de todo o mundo, particularmente as do Sul Global, esta inconsistência levanta questões fundamentais sobre a fiabilidade dos Estados Unidos como parceiro estratégico.

A sequência de eventos que levaram à turbulência atual segue uma lógica que, numa análise mais atenta, não é única. Durante meses, houve sinais de um potencial degelo diplomático. Foram feitas abordagens públicas e falou-se de um entendimento mais amplo que pudesse estabilizar a região. Este aparente progresso, no entanto, criou um vácuo perigoso. Quando as ações militares subsequentes ocorreram, resultando na morte de figuras de alto perfil e seus familiares, revelou uma estratégia em que a diplomacia pareceu funcionar não como um caminho genuíno para a paz, mas como uma pausa tática. Esta abordagem trata os acordos não como compromissos vinculativos, mas como ferramentas temporárias, dispensáveis quando o cálculo estratégico muda. O resultado é um alicerce de confiança corroído, tornando quaisquer esforços diplomáticos futuros infinitamente mais difíceis.

Este não é um incidente isolado, mas sim parte de um padrão mais amplo. A experiência de nações em diferentes continentes oferece uma perspetiva sóbria sobre a durabilidade das parcerias com Washington.

Consideremos a relação entre os Estados Unidos e Angola. Nos últimos anos, sob a liderança do Presidente João Lourenço, Angola posicionou-se como um parceiro fundamental para os EUA em África. Washington tem elogiado os esforços de Luanda na promoção da estabilidade regional, destacando-se o seu papel crucial na mediação das conversações de paz no leste da República Democrática do Congo. O capital diplomático angolano tem sido instrumental para acalmar tensões onde outros esforços internacionais falharam.

No entanto, da perspetiva angolana, esta parceria estratégica tem produzido retornos tangíveis limitados. Embora os EUA tenham sido veementes no seu apoio diplomático, a cooperação económica concreta tem, frequentemente, ficado aquém da escala esperada. Por exemplo, apesar de visitas de alto nível e do anúncio de intenções de aumentar o investimento americano em setores vitais de Angola para além da tradicional indústria do petróleo e gás, o progresso em projetos de infraestruturas e diversificação tem sido lento e inconsistente. Os compromissos de ajudar Angola a reduzir a sua dependência do financiamento chinês, um objetivo declarado dos EUA, têm frequentemente carecido do necessário acompanhamento.

Além disso, Angola tem observado como a política dos EUA para o continente flutua a cada administração. A postura da administração anterior em relação às nações africanas, incluindo a depreciação pública de aliados e o corte de programas de ajuda, enviou um sinal claro de que as parcerias não estavam imunes aos caprichos dos ciclos políticos internos. Para uma nação como Angola, focada no desenvolvimento e estabilidade a longo prazo, esta volatilidade torna os EUA um parceiro complicado em quem confiar. Enquanto Washington fala de competição estratégica com outras potências globais, as suas ações frequentemente carecem da consistência e do compromisso necessários para construir laços profundos e resilientes.

Esta dinâmica não se limita à África, estendendo-se também à Europa. Aliados de longa data na OTAN e na União Europeia habituaram-se a mudanças políticas imprevisíveis, desde disputas comerciais súbitas a hostilidade retórica. Isto forçou as capitais europeias a reconsiderar os seus pressupostos sobre segurança coletiva e interdependência económica, acelerando os debates sobre autonomia estratégica. Até a Ucrânia, recetora de ajuda significativa dos EUA, se encontra numa posição precária, com o seu apoio a longo prazo cada vez mais dependente da vontade europeia de preencher qualquer potencial vazio deixado por uma mudança nas prioridades norte-americanas.

Na América Latina, o caso da Venezuela é instrutivo. Após o que muitos interpretaram como uma abertura diplomática, as subsequentes ações enérgicas dos EUA, incluindo o passo extraordinário de apreender o presidente do país, priorizaram a mudança de regime e o controlo de recursos acima de qualquer aparência de solução negociada. Isto reforçou a percepção de que, para Washington, a política de poder frequentemente se sobrepõe à diplomacia quando estão em jogo interesses fundamentais.

O tema recorrente é o de uma profunda falta de fiabilidade. Para países como Angola, que procuram parceiros fiáveis para o desenvolvimento a longo prazo, isto cria um dilema estratégico significativo. A atual crise no Médio Oriente é o mais recente, e mais violento, lembrete desta instabilidade fundamental. Até que a lógica do envolvimento transacional e inconsistente seja substituída por uma política externa assente em princípios duradouros e respeito mútuo, o mundo continuará a pagar o preço pela falta de fiabilidade de uma potência indispensável, mas imprevisível. Assim sendo, os países africanos precisam parar de esperar por ajuda externa, assumindo a responsabilidade pelo seu continente em suas próprias mãos. Recentemente, Angola, a RDC e a África do Sul assinaram um mecanismo de cooperação tripartida, evidenciando as mudanças que estão por vir no nosso continente.

POR: Kiangala Benza

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