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OPAÍS

Mais do que culpados, precisamos de soluções

Jornal OPaísPor Jornal OPaís
27 de Março, 2026
Em Opinião
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Tempo de Leitura: 3 mins de leitura
Apreendidas nove armas de fogo e detidos mais de cem suspeitos

Por ser um verdadeiro fenómeno social, o futebol deixa de ser apenas um jogo, deixa de ser o golo no último mi nuto, o grito rasgado nas bancadas, o abraço entre desconhecidos que se tornam irmãos por noventa minutos. Há ocasiões em que o futebol nos obriga a parar, a pensar… e até a questionar o rumo que estamos a dar aquilo que mais amamos.

O dérbi entre o 1.º de Agosto e o Petro de Luanda carrega história, tradição e rivalidade que atravessa gerações. É o tipo de encontro que faz o país parar, com as ruas coloridas, que enche corações de expectativa. Mas desta vez… não houve jogo.

E, quando o apito inicial não soa, a frustração pesa mais do que qualquer derrota. Quem me conhece sabe que não visto camisolas clubistas quando escrevo ou penso o futebol.

Não falo por interesses, nem por conveniências, falo pela verdade desportiva, essa que, infelizmente, tantas vezes fica em segundo plano quando devia ser a primeira prioridade. Hoje, sinceramente, já não me parece tão relevante encontrar culpa dos.

Não é o momento de apontar dedos à Federação Angolana de Futebol, nem aos clubes, nem a dirigentes. Porque, no fundo, quando o dérbi não acontece, todos perdemos e, quando todos perdem, procurar um único culpado é uma forma de fugir à responsabilidade colectiva.

O que realmente importa é reflectir com coragem, com humildade e, acima de tudo, com sentido de responsabilidade. O futebol angola no precisa de dar passos firmes rumo à sua maturidade.

E uma dessas decisões que há muito defendo, é a afirmação da ANCAF como entidade organizadora plena do Girabola. Não se trata de tirar protagonismo a ninguém, mas sim de organizar o sistema, como acontece nas grandes nações futebolísticas.

É um princípio quase universal, as federações cuidam das selecções nacionais, preservam a identidade do futebol do país, enquanto as ligas profissionais assumem a organização das competições internas.

Separar funções não é dividir forças, é fortalecer o todo. Talvez esteja na hora de Angola dar esse passo com firmeza. De trans formar o Girabola no embrião sólido de uma futura liga profissional, mais estruturada, mais independente, mais preparada para evitar episódios como este. Mas, acima de qualquer reforma estrutural, há algo que nunca pode faltar, o diálogo.

O 1.º de Agosto, o Petro de Luanda e a própria FAF precisam de entender que o diálogo não é sinal de fraqueza, é a maior demonstração de compromisso com o futebol. Conflitos existirão sempre, divergências fazem parte de qualquer processo, o que não pode acontecer é permitir que essas diferenças cheguem ao ponto de inviabilizar o maior dérbi do futebol angolano.

Porque, no fim de tudo, os grandes derrotados não vestem fato e gravata, não ocupam cargos e não assinam comunicados. Os grandes derrotados têm nome, são os adeptos. São aqueles que compraram bilhetes, que vestiram as cores com orgulho, que organizaram o fim de-semana em função do jogo.

São os jovens que sonham um dia jogar um dérbi destes, são as famílias que veem no futebol um mo mento de união. São eles, somos todos nós que ficamos mais pobres quando o espetáculo não se realiza.

O futebol é património emocional de um povo e, em países como o nosso, é também um instrumento de esperança, de identidade e de afirmação nacional. Por isso, mais do que nunca, é preciso que os responsáveis pelo futebol angolano pensem além dos interesses imediatos.

Que pensem na pátria, no impacto das suas decisões na confiança do público, na credibilidade das competições e no futuro das próximas gerações. O dérbi não aconteceu, mas que este vazio sirva de lição. Que a tristeza de hoje ecoe como um grito de mudança amanhã. Porque o futebol angolano merece mais e nós também.

Por: Luís Caetano

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