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OPAÍS

Ludovico Einaudi, uma sumidade musical

Jornal Opaispor Jornal Opais
8 de Setembro, 2023
Em Opinião
Ludovico Einaudi, uma sumidade musical

Enéas Carneiro, polímata, adversário de Lula da Silva nas eleições presidenciais do Brasil em 1994, era categórico quando dizia que na sua perspectiva, um candidato à presidência da República devia, obrigatória e criteriosamente, possuir um mínimo de preparo intelectual e profissional para tornar-se elegível a posição de Chefe de Estado, em detrimento da seriedade e exigências inerentes àquela posição cimeira.

É uma perspectiva digna de profunda consideração. Acredito que o mesmo devia ser exigido dos artistas musicais.

Uma condição inegociável que se lhes devia ser imposta para serem considerados músicos é a de que soubessem tocar no mínimo um instrumento musical.

Os artistas contemporâneos na sua esmagadora maioria monopolizam as músicas com as suas vozes. Esquecem-se, ou talvez não compreendam a importância de ceder parte do protagonismo aos instrumentos musicais.

Reprimem e não os dão permissão para se expressarem e destilarem as suas melodias.

A música contemporânea usa e abusa do auto-tune, é demasiado plástica e robotizada. Benditos sejam os artistas que percebem a importância e dão protagonismo aos instrumentos musicais nas suas obras.

Só quem já atendeu a um concerto ao vivo com banda percebe a magia, o impacto e o deleite que se sente ao estar em tais ambientes de sons puros, vívidos e pulsantes.

Entendem bem a importância desta matéria artistas como o Duo Canhoto, no caso da música “Agora Eu Sei”, das minhas favoritas, a qual é repleta de belos acordes profissionalmente aplicados e emitidos pela guitarra, num perfeito enlace harmônico entre voz e instrumento.

Em “Dangwa”, quarta música do icônico álbum “Soul Makossa” de Mano Dibango, há uma panóplia de instrumentos que ganham voz e falam profusamente, numa combinação de ritmos e melodias essencialmente produzidos pelo saxofone, batuque e guitarra que refrigeram a alma.

Há mais instrumentos do que voz em “Dangwa”, e é esta razão fundamental que torna a música atemporal.

Ed Sheeran é um dos expoentes da música secular contemporânea que parece perceber o quanto é importante dar voz aos instrumentos, fazendoo em maior parte das suas composições.

Exímio guitarrista, em “Tenerife Sea”, o artista dá mais vida a música ao permitir que a guitarra falasse livremente, emitindo melodias que adornaram e complementaram a sua voz.

Através da combinação de música erudita com estilos como o Rock, Pop, música africana e oriental, Ludovico Einaudi, pianista e compositor italiano, descobriu uma fórmula musical divina.

O artista desafia a norma e o padrão musical dos tempos hodiernos, os quais monopolizam o uso da voz e terceirizam o protagonismo dos instrumentos musicais.

Este desafio se reflete em uma atitude ousada e radical: fazer música onde o piano é o único protagonista e a única voz emitida, vez ou outra acompanhado pelo violino e o violoncelo, porém, nada de voz humana.

Ludovico Einaudi tem essa capacidade de transportar a alma para um plano etéreo e metafísico, o qual não se submete às leis do tempo.

Um plano incorpóreo de gravidade zero, onde a alma flutua, a matéria se dissolve e tudo se desintegra em partículas microscópicas.

Einaudi eleva a alma para um nível profundo de introspecção do qual se sai percebendo tudo sobre tudo e mais alguma coisa.

Neste plano astral onde as almas têm residência, somente a paz reina. Não há lugar para pensamentos destrutivos.

Não admira que muitos dos seus ouvintes afirmem ter superado doenças que afetam a alma como a depressão, decepção amorosa e/ou a perda de um ente querido por intermédio das suas músicas, sendo por isso benéficas para a saúde mental, à semelhança das sensações e sentimentos causados pelas clássicas composições do eterno Tchaikovsky.

Quando se ouve Ludovico Einaudi uma coisa é certa: não há lugar para o que for que seja supérfluo. Tudo quanto nos separa, antagoniza e opõe é reduzido a nada.

O artista escusa-se a falar com os homens uma vez que percebe que estes são peritos em erigir fronteiras, tanto físicas quanto ideológicas.

Por essa razão, dirige-se as suas almas e com elas enceta um profundo diálogo. Não se trata, porém, de um diálogo prosaico, regido por palavras ou gestos.

Antes sim, é contemplativo, e aquilo a que Ludovico Einaudi nos convida a contemplar por intermédio das doces melodias cuidadosa e delicadamente emitidas conforme os seus dedos sensíveis tocam nas teclas do seu piano nada mais é do que o cosmos, os átomos e a eternidade.

Como se diz por aí, super recomendo.

 

Por: EDUARDO PAPELO

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