Exigência de contrato de trabalho, fiador, rendimentos compatíveis e pagamento antecipado de várias rendas dificultam o acesso à habitação. Casais angolanos relatam anos a viver em quartos partilhados e dizem que conseguir uma casa própria se tornou uma tarefa quase impossível
João e Maria chegaram a Portugal com apenas duas malas de 23 quilos. Dentro delas levavam roupas, alguns objectos pessoais e o pouco que conseguiram transportar da vida que tinham construído em Angola. Mais de quatro anos depois, continuam sem conseguir arrendar um apartamento. Aos 33 e 35 anos, respectivamente, o casal já passou por cinco quartos arrendados desde que desembarcou no Aeroporto Internacional de Lisboa Humberto Delgado.
A procura por uma casa própria começou poucos meses depois da chegada, mas esbarrou, desde cedo, nas exigências impostas por senhorios e agências imobiliárias. Em 2022, tentaram arrendar um T1. A primeira barreira surgiu quando lhes foi exigido um contrato de trabalho em Portugal. Tinham chegado há menos de três meses e ainda sobreviviam com as poupanças que levaram de Angola para financiar o recomeço.
Sem contrato de trabalho e sem rendimentos regulares, desistiram. A alternativa foi dividir uma casa com desconhecidos. Durante dois anos, a ideia de arrendar um apartamento próprio ficou praticamente de lado. Mas a gravidez da esposa voltou a colocar a habitação no centro das preocupações. O casal precisava, pelo menos, de um T1. Voltaram às plataformas imobiliárias, mas encontraram praticamente as mesmas exigências.
“Vimos um anúncio no idealista que dizia que os inquilinos devem ter contrato de trabalho efectivo em Portugal, fiadores portugueses com contrato de trabalho efectivo. E o valor da renda não pode representar mais de 30% do rendimento familiar”, conta João. Para o casal, a exigência é difícil de cumprir num mercado em que as rendas dispararam.
“Como é possível, com rendas à volta dos 1.000 euros e salário mínimo de 920, o valor não ser mesmo superior a 30% do rendimento total de um casal? Na prática, estão a dizer-nos que é impossível arrendar uma casa.” João diz que o problema não afecta apenas os imigrantes. “E o problema não é só para nós, angolanos. Até mesmo portugueses já começam a viver connosco em quartos.
Está cada vez mais insustentável o mercado imobiliário em Portugal”, aponta. Um quarto para três O nascimento do filho tornou ainda mais difícil a vida do casal. A criança passou a ser o terceiro ocupante do quarto onde os pais já viviam. Os choros durante a madrugada começaram a incomodar os restantes moradores da casa. Segundo João e Maria, os colegas chegaram a alertá-los para a possibilidade de apresentarem uma queixa à Comissão de Protecção de Crianças e Jovens, para que fossem avaliadas as condições em que o bebé vivia com os pais.
A situação, dizem, tornou ainda mais urgente a procura por uma habitação própria. Mas o problema permanecia: sem cumprir as exigências dos senhorios, a família continuava sem conseguir sair do quarto. “Ter esta casa foi um milagre” Fábio e Cátia conhecem a mesma realidade. Vivem em Portugal desde 2018 e só em 2025 conseguiram arrendar um apartamento T2. Durante quase seis anos, viveram em quartos. A falta de privacidade era apenas uma das dificuldades. A partilha de espaços comuns com desconhecidos gerava também conflitos e situações que, segundo o casal, tornavam o quotidiano desgastante. Fábio recorda dias em que chegou a sair para o trabalho sem tomar banho.
“Havia pessoas que entravam na casa de banho e ficavam quase uma hora. Se eu esperasse pela vizinha, acabaria por me atrasar para o trabalho”, salientou. Cátia, por sua vez, lembra-se de abrir o frigorífico e não encontrar alguns dos alimentos que tinha comprado. “Às vezes abria a geleira e não encontrava os meus produtos, como bolo, iogurtes, queijo e fiambre. Algumas coisas simplesmente desapareciam”, desabafou. O casal tentou várias vezes arrendar uma casa. Mas, além da documentação exigida, deparava-se com outro obstáculo: o dinheiro necessário para entrar no imóvel. Duas rendas e duas cauções podiam representar, no seu caso, o equivalente a quatro rendas pagas de uma só vez.







