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OPAÍS

Hendrick Vaal Neto: “Não podemos fazer um milagre que os Estados Unidos não fizeram”

Dani Costapor Dani Costa
1 de Dezembro, 2023
Em Entrevista, Manchete

Diplomata Hendrick Vaal Neto, antigo ministro da Comunicação Social, viveu vários anos nos Estados Unidos o período anterior ao reconhecimento do país por parte desta potência mundial, com a qual Angola celebra 30 anos de cooperação. Faz parte de um selecto grupo de políticos, que incluía, entre outros, Johnny Pinock Eduardo e Paulo Tuba, que ao lado da Missão Angolana nas Nações Unidas, ajudaram o país a ultrapassar este imbróglio. Hoje, passados vários anos, o político relembra esses momentos, atribui méritos a Manuel Pedro Pacavira e Paulo Teixeira Jorge, salientando que, quanto ao encontro entre os Presidentes João Lourenço e Joe Biden, “não vejo problemas graves que os Estados Unidos possam levantar ou se agarrar para não tratar da devida forma o nosso Presidente. Pelo contrário, acho que será um encontro bastante amigável’

Viveu durante algum tempo nos Esta- dos Unidos. Como é que se viam os angolanos neste país no período da Guerra Fria?

Saí de Angola em circunstâncias em que a Guerra Fria estava, praticamente, no seu auge. Angola, naquela altura, estava a sofrer influência dessa Guerra Fria. Porque a questão não incomodava só os Estados Unidos e a União Soviética, mas já afectava toda a humanidade. Então, foi nessa fase, em que a Guerra Fria atingia os níveis mais elevados, que eu cheguei aos Estados Unidos. Pronto, acompanhamos mais ou menos a situação. Durante a Guerra Fria, era de esperar que as relações entre Angola e os Estados Unidos não fossem das melhores. Porque os Estados Unidos eram um dos pólos da Guerra Fria. Outro pólo era a União Soviética. Portanto, naquela altura, Angola tinha boas relações com a União Soviética.

Claro, também é necessário explicar porque Angola tinha boas relações com a União Soviética? Muitos indivíduos podem pensar que fosse por uma questão de simples simpatia para aquela potência, digamos o bloco socialista, mas não era esse o simples facto. Era o facto de que a União Soviética, quer queiramos ou não, era um dos países que apoiava o movimento de libertação da África. Esse movimento era ajudado efectivamente pela União Soviética. É claro, Angola estava lutando pela via armada, aliás, para a libertação do país e beneficiou deste apoio. Um apoio que não foi simplesmente militar, como todos os movimentos receberam directa ou indirectamente apoio da União Soviética, mas também, digamos, um apoio político-diplomático bastante forte. Portanto, perante esta situação não podemos esperar que, sendo o Estado angolano a beneficiar deste apoio do Bloco do Leste, o Bloco Ocidental fosse favorável a situação que o país vivia naquela altura. Portanto, antes de 1975 podemos dizer que a União Soviética apoiou Angola. Depois de 1975 continuou a apoiar Angola, muito efectivamente, e isso não satisfazia o lado ocidental, do qual os Estados Unidos eram e continuam a ser o país mais importante.

Conseguiam sentir a animosidade?

Nós acompanhávamos o desenrolar da Guerra Fria, com certeza. Havia manifestações que não eram só em relação a Angola, mas a vários países do mundo. A Guerra Fria envolveu todos os países do mundo. Portanto, ou se era de um lado ou do outro. Com certeza que esse posicionamento tinha influenciado ou influenciava as relações diplomáticas entre países de diferentes blocos. Como se era de esperar. Agora, depois da queda do Muro de Berlim, aliás — deixe dizer porque é preciso pôr em evidência —, o ajuste que houve em Angola teve lugar até antes da queda do Muro de Berlim. É importante esse momento. Com a queda do Muro de Berlim surge uma nova conjuntura. Uma nova conjuntura que foi mais favorável a África e a, consequentemente, Angola.

O governo americano e o Ocidente em geral começaram a promover um pouco a sua posição em relação aos países que consideravam favoráveis ou apoiantes dos soviéticos. Ora, Angola já não era do, ponto de vista ideológico, aquele país associado com todo o radicalismo ao bloco, digamos, comunista. Tinha já naquela altura mudado o sistema político interno. Angola tinha-se aberto para a democracia. Com a democracia, claro que o sistema de vida do povo angolano já era diferente daquele centralismo que caracterizava o sistema anterior. Digamos, Angola tinha todas as condições para ser associado aos diferentes países democráticos existentes no mundo. Quer dizer que Angola se tornara, digamos, um país democrático. É claro que em transição, porque não se passa de um regime ideológico de determinado tipo para outro de um momento para outro. É necessário um processo.

E Angola oficialmente entrou neste processo. Depois o Governo angolano abriu-se e também desenvolveu um determinado esforço no sentido da reconciliação interna, ver a solução do problema interno do país. Devemos mencionar aqui com grande evidência o esforço que foi feito pelo Presidente José Eduardo dos Santos naquela altura, cujos bons resultados nós conhecemos. Assim sendo, era também do interesse de Angola que se melhorasse as relações não só com o bloco do Leste, que era, digamos, um facto consumado, mas também com o resto do mundo. Angola de- veria libertar-se ideologicamente de qualquer tipo de confinamento ideológico. Era necessário agora, já que o país se democratizara, concretizar aquilo que eram os princípios que tinha aderido no sentido da mudança para a democracia.

O processo começou, correu bem, as instituições democráticas foram criadas. O que era necessário para se caracterizar o país como democrático começou a existir e já não podia ser caracterizado, como diziam os ocidentais, como sendo, digamos, um país ditador, de opressão. O processo de democratização do país tinha começado. Depois, com esse esforço, graças a todo um esforço que teve lugar naquela altura no país, Angola entrou para uma nova fase. Portanto, ao Ocidente já era possível associar Angola ao xadrez dos países democráticos do mundo.

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