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OPAÍS

Yuri Quixina: “Nenhum investidor aposta num mercado onde há instabilidade da inflação”

Jornal Opaispor Jornal Opais
18 de Abril, 2018
Em Economia

O Economia Real desta edição aborda, entre outros temas, a necessidade da estabilidade de preços e os desafios da redução da presença empresarial do Estado na economia. O economista Yuri Quixina defende tomada de medidas corajosas para reduzir a gordura do Estado

Texto de: Mariano Quissola / Rádio Mais

O nosso ponto prévio vai incidir sobre o balanço final do Plano Intercalar… continua à espera?

Como analista e alguém que lida diariamente com matéria económica, espero que se faça um balanço final por parte da autoridade económica, na medida em que o mercado só funciona com informação. O mercado está à espera do balanço do Plano Intercalar e de que medidas de ajustamento serão tomadas, face à derrapagem registada no prébalanço feito na reunião da Comissão Económica na Lunda-Norte.

Da actualidade económica destacase, entre outras, a declaração do secretário de Estado da Economia, segundo a qual a atracção de investimentos depende da estabilidade de preços. Concorda?

Seguramente. Nenhum investidor aposta num mercado onde há instabilidade da inflação. A inflacão é o factor de correcção dos investimentos. A equação para a estabilidade de preços em Angola é muito complexa e difícil, mas não é impossível. A base de instabilidade da economia angolana sempre foi a inflação. Nas últimas décadas conseguimos controlar os preços até atingirmos 7 a 12%, porque conseguíamos camuflar a inflação através da alta de preços do petróleo, era fácil o BNA colocar dólares no mercado para aculturar os nossos empresários a serem importadores.

Qual deve ser a política de correcção à inflação?

A equação para a estabilidade de preços em Angola é enorme e é preciso coragem, porque o remédio é amargo…

Qual é o remédio?

O Estado é muito gordo, o que pressupõe a existência de défice. E se tiver défice vai buscar crédito no mercado que seria destinado às empresas e às famílias. E quando há défice, a dívida aumenta e tem impacto nos impostos, que influenciam a alta de preços. É uma cadeia.

O secretário de Estado para a Economia, Sérgio Santos, reconheceu que o Estado deve deixar o seu papel de produtor e passá-lo às empresas…

Sempre defendi que o Estado, por fazer tudo é que nós somos pobres. O Estado deve-se focar nas questões sociais e infra-estruturais e deixar as empresas.

Na semana passada, o ministro da Economia e Planeamento afirmou que a atracção de investimentos para as províncias dependia da dinâmica dos governos locais e o secretário de Estado entende que depende da estabilidade de preços. O que isso lhe parece?

Acho que os jogadores não estão a jogar como o Barcelona. Penso que devia haver melhor coordenação, de modo a que o ministro falasse a língua do secretário de Estado. A promoção do investimento não depende do governador, ele é o complementar e não a base.

Se calhar falta alguma paciência, porque o Presidente garantiu que iria transformar a sua equipa num Barcelona…

A questão que se coloca é que o meio e o fim pedem do princípio. O princípio tem que ser estrela, para que o fim seja brutal.

Então não acredita nesse Barcelona?

Penso que o Barcelona está no início e é fácil ainda ajustar do ponto de vista de ideias, para evitar que o Barcelona não perca com o AS Roma.

Duas consultoras concluem que Angola será o anfitrião dos investimentos no futuro. Com que impressão ficou do estudo?

A informação é positiva porque mesmo com o Produto Interno Bruto a contrair, o trabalho que está a ser feito para criar expectativas está a ter efeitos fora do país. As consultoras são muito importantes, estamos a falar da Mergermarket e Control Risks. Tendo em conta os sinais lançados para a reforma do modelo económico, não obstante a lentidão com que está a ser feita, a moralização que o Presidente João Lourenço está a fazer já é sentida lá fora.

Mas o relatório também faz alertas e chama a atenção para o perigo de a actividade económica ser dominada pelo Estado. Aqui é o que tenho dito: enquanto o Estado fizer economia, é um perigo enorme, porque os investidores estrangeiros não gostam de mercados em que o Estado é que faz economia.

Estado gordo e balofo é fraco. Os factores que tiveram em conta para que Angola seja o anfitrião dos negócios no futuro são, nomeadamente: a Lei de Investimento alterou o valor máximo para investimentos; a abertura dos vistos; medidas de combate à corrupção e a recuperação dos 500 milhões de dólares.

Também alerta para o risco político…

Sim, o estudo conclui que o risco político pode ser o principal obstáculo, baseado no inquérito que duplicou o receio da bicefalia de 41 para 84%. As consultoras entendem que se essa questão não for acautelada pode retrair o investimento.

Qual é sua expectativa sobre o processo de saída do Estado da economia?

Isso depende da coragem e da filosofia escolástica para que tal ocorra.

Acredita que venha a efectivar-se nesta legislatura?

É possível, a maior parte das economias eram assim. Se não tivermos coragem e explicar ao povo a necessidade de mudarmos as ideias, a crença, a atitude, valores e o amor ao crescimento económico, não vamos conseguir tirar o peso do Estado na economia. É importante explicar ao povo, o resultado de o Estado deixar de ter empresas públicas, as vantagens de reduzir os ministérios para 12, por exemplo, em vez de 35. Entretanto, enquanto o Estado se mantiver com essa gordura, vamos ficar pobres.

Dois meses depois da aprovação do OGE o petróleo é vendido a um preço médio de 68,30 dólares. O que é que isso representa?

Representa dois elementos fundamentais: pode melhorar a dinâmica orçamental, tendo em conta esse deferencial. Mas também é preciso dizer que melhora entre aspas, por uma razão fundamental: os preços podem subir, mas fez-se poucos investimentos no sector petrolífero. A outra variável é que continuamos a pagar dívida à China, se tirarmos algum proveito dessa alta de preços será por via dos impostos petrolíferos.

SUGESTÃO DE LEITURA

Título: “As leis secretas da economia”, é resultado de investigação sobre as práticas que envolvem as políticas financeiras no Brasil. A inspiração foram algumas das leis elaboradas com humor nos anos 60 por Roberto Campos e Alexandre Kafka. Autor: Gustavo H.B. Franco Yuri Quixina, economista e analista da Rádio Mais

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