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MÚSICO FIEL DIDI: “Sou uma pessoa ligada às artes e preocupo-me bastante com a nossa música”

Augusto Nunespor Augusto Nunes
17 de Outubro, 2025
Em Cultura, Em Cartaz

Fiel Didi é o homem de quem falamos — cantor, compositor, intérprete e associativista. É oriundo de uma família de músicos, da qual faz parte o lendário Rei Elias Dya Kimuezo. O seu pai foi um exímio dançarino de Kazukuta no grupo carnavalesco União Operário do Sambizanga, do qual foi cofundador nos idos anos 70. Hoje, Fiel Didi assume-se como um grande defensor do Semba — um estilo musical que acompanha desde a adolescência, quando seguia o pai ao Kutonoca e a outras actividades culturais. Nesta curta entrevista concedida ao jornal OPAÍS, o cantor fala da sua experiência artística, do percurso musical, dos projectos, da criação das bandas Movimento e Yetu, bem como do associativismo enquanto integrante do Movimento Espontâneo, que levou a música e a cultura angolana a vários palcos do mundo, com destaque para o desporto

Fiel Didi, como se define culturalmente?

Eu identifico-me, de facto, como um homem de Cultura, porque tenho ligações muito fortes com todos os motivos culturais da nossa terra. Sou uma pessoa ligada às artes e preocupo-me bastante com a nossa música, com as outras formas de arte que temos no país.

Preocupome também com os hábitos e costumes do nosso povo, com Angola e com a Luanda de antigamente. Toda essa trajectória, todas as metamorfoses que aconteceram ao longo dos anos — antes mesmo de eu nascer — preocupam-me bastante. Isso torna-me um homem de Cultura, porque estou muito ligado aos fenómenos culturais da nossa terra.

Como enveredou para a carreira musical e que idade tinha na altura?

Olha, na minha família toda a gente é músico, quer em casa, quer entre os parentes directos. Nós, nas tertúlias, nos óbitos, nos dias de animação ou de tristeza, não precisamos de contratar músicos, porque todos nós cantamos.

A minha mãe, o meu pai, o meu irmão, o meu primo — todos participam. Deixa-me dar um exemplo: o meu pai foi um dos co-fundadores do grupo União Operário Kabocomeu, em 1945. Nessa altura, estavam a subir da Ingombota para o Sambizanga.

Quando a Ingombota começou a tornar-se cidade, o desenvolvimento foi reassentando as populações. O meu pai nasceu na Ingombota e, ainda jovem, teve de sair de lá para o Marçal. Outros foram para o Musseque Burity (actual Bairro Operário), o Musseque dos Assis, o Rangel e parte do Marçal. Havia sempre uma grande veia cultural. O meu pai foi um dos fundadores do Kabocomeu em 1945. E isso é só um exemplo.

Todos nós tínhamos tios em Turmas Musicais — como o tio Elias Dya Kimuezo, o tio André Cassete, o Ti Zé Agostinho, o Ti Paizinho. Todos participavam activamente nas grandes Turmas daquele tempo, antes mesmo de existirem os Conjuntos Musicais. Primeiro, eram Turmas Musicais. Essa realidade, essa trajectória na minha família é normal. Somos todos muito bem-dispostos e gostamos de cantar.

Com que idade começou a interessar-se, de facto, pela música?

Sempre me interessei pela música. Fui um artista de “palmo e meio”. Naquele tempo, com o Guigui do Marçal, o Narciso do Copo, o Narciso do João Canza, com o Luís Domingos — fomos artistas de palmo e meio, artistas pioneiros.

Cantávamos muita música infantil. Participámos no Kudissanga, no Salão dos Anjos, no Bom Jesus, nas matinées infantis, e fazíamos grandes concursos. Nessa altura, os artistas infantis destacavam-se muito — como o Guigui do Marçal e o Narciso do João Canza, lá no Sambizanga.

A música nunca me foi estranha. Talvez a sociedade se tenha surpreendido quando comecei a cantar, mas já estava dentro dela. Com 26 anos já era gerente do Centro Recreativo Kudimuena, em Cacuaco, um salão de referência no Bairro dos Pescadores.

E como surgiu a sua relação com os artistas?

A minha relação com os artistas, principalmente os mais velhos, tem muito a ver com a minha função, na altura, como gestor de centros recreativos. Eu era gerente do Kudimuena e também contratante, então relacionava-me com todos.

Naquele tempo, os Centros Recreativos tocavam semanalmente, com muita regularidade. Hoje, infelizmente, desapareceram nos últimos 20 ou 25 anos. Estamos a perder esse sentido de centro recreativo, que tanta falta faz.

Os artistas já não têm onde se apresentar, estão a “cair aos pedaços”. Sempre estive ligado à música e, mais tarde, tive de dar o passo seguinte. Quando criei o Centro Recreativo “O Rio do Dande”, na Barra do Dande, fundei a minha segunda banda, a Banda Yetu.

Antes, criei a Banda Movimento, em casa da minha mãe, no Marçal, há cerca de 25 anos. A Banda Yetu surgiu em 2004/2005 porque precisava de uma banda própria na Barra do Dande.

Na hora dos ensaios, comecei também a participar — muitos surpreenderam-se e incentivaram-me a cantar. Foi assim que tudo começou. Hoje já estamos no quarto álbum.

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