Jorge Fernandes
Chefe de Redacção
Estamos em plena época chuvosa. E, como tem sido habitual, os primeiros sinais de precipitação intensa começam a revelar as fragilidades das nossas cidades. O INAMET já havia alertado para uma época marcada por chuvas significativas. Portanto, não se pode dizer que fomos apanhados de surpresa. Mas a questão não está na chuva. Trata-se de um fenómeno natural, necessário à vida e ao equilíbrio ambiental, que o homem não pode impedir.
O verdadeiro problema está na forma como nos preparamos para recebê-la. É precisamente aí onde reside a nossa maior fragilidade. As consequências das chuvas dependem, em grande medida, do nível de preparação das cidades, sobretudo dos bairros periféricos, onde a insuficiência de infra-estruturas de drenagem transforma cada precipitação numa ameaça à tranquilidade das famílias.
A realidade de Luanda, cidade onde me encontro, não é diferente da de outras localidades do país. Basta que chova durante algumas horas para que determinados bairros fiquem mergulhados em água, com ruas intransitáveis, residências inundadas e famílias obrigadas a enfrentar prejuízos que, muitas vezes, levam anos a reparar. A mobilidade fica comprometida e, acima de tudo, instala-se a tristeza de quem vê os seus poucos haveres ameaçados pela água que não encontra um caminho adequado para escoar.
As chuvas deveriam representar uma bênção da natureza, não uma sentença de sofrimento para quem vive nos bairros periféricos. Contudo, continuamos a assistir a cenários de inundações que se repetem praticamente todos os anos, como se a experiência acumulada não servisse para antecipar soluções. Parece que nos habituámos a reagir aos estragos, em vez de trabalhar para os evitar.
Recentemente, um engenheiro hidráulico chamou-me a atenção para uma questão importante: a fiscalização de uma obra não começa quando os trabalhos estão em execução, muito menos quando surgem os primeiros problemas. Começa ainda na concepção do projecto, fase em que devem ser avaliadas as condições do terreno, a capacidade de drenagem e a adequação das soluções técnicas.
O fiscal não deve aparecer apenas quando o problema já está instalado. Deve acompanhar, orientar e prevenir. Esta observação leva-nos a questionar a qualidade de algumas intervenções realizadas nas nossas cidades.
De que serve construir canais de drenagem se estes não forem devidamente dimensionados, fiscalizados e articulados com os sistemas de escoamento existentes? Luanda tem vindo a beneficiar de algumas intervenções nos canais de drenagem, iniciativas necessárias e que merecem reconhecimento. Mas não basta intervir em determinados pontos e deixar outros bairros entregues à própria sorte.
O planeamento deve ser integrado e responder às necessidades concretas das populações. Também não podemos ignorar a ocupação desordenada do território, a construção em zonas de risco, a obstrução de valas e a deposição indiscriminada de resíduos sólidos. São factores que agravam os efeitos das chuvas e exigem responsabilidade das autoridades e dos cidadãos.
Precisamos de abandonar a cultura da emergência. Não podemos esperar que as águas invadam as casas, destruam estradas e prejudiquem famílias para só depois mobilizarmos máquinas e equipas de intervenção. A prevenção custa menos do que a reconstrução e, acima de tudo, evita sofrimento. A chuva não é nossa inimiga. É parte indispensável da vida.
O que não podemos aceitar é que, todos os anos, a sua chegada represente uma ameaça para quem simplesmente quer viver em segurança no seu bairro.
Está na hora de deixarmos de tratar apenas as consequências e começarmos a resolver as causas. Porque uma cidade preparada não teme a chuva. Sabe recebê-la, encaminhá-la e transformá-la num recurso, em vez de permitir que se converta numa tragédia.








