Luis Caetano
O comunicado da ANCAF sobre a necessidade de respeitar os prazos para alterações de datas e horários dos jogos da Liga Unitel Girabola levanta uma questão que mere ce reflexão: afinal, estamos verdadeiramente preparados para assumir os desafios de uma competição que pretende afirmar-se como produto desportivo e comercial? A profissionalização do futebol não se constrói apenas com contratos, patrocínios, direitos televi sivos ou discursos institucionais.
Exige organização, disciplina, previsibilidade e, acima de tudo, res peito pelos compromissos assumidos. A decisão de exigir uma antecedência mínima de 15 dias para qualquer alteração ao calendá rio parece-me uma medida necessária e até tardia. Não faz sentido que uma competição que procura conquistar credibilidade junto dos investidores e parceiros de transmissão continue refém de sucessivas mudanças de última hora. É preciso compreender que um jogo de futebol deixou há muito de ser apenas um encontro en tre duas equipas.
É também um produto televisivo, um espaço de exposição para os patroci nadores, uma operação logística e uma oportunidade comercial. Quando um jogo muda de data ou horário sem a devida antecedência, não são apenas os adep tos que ficam prejudicados. Há equipas de televisão, profissionais, anunciantes e operadores que precisam de reorgani zar compromissos e recursos.
A ZAP e a A Bola TV não são meros espectadores deste processo. São parceiros comerciais que assumiram compromissos com base num calendário previamente estabelecido. Se a Liga não consegue garantir estabilidade na sua programação, como poderá exigir confiança e investi mento de quem compra os seus direitos? Mas a responsabilidade não pode ser colocada exclusivamente sobre os clubes.
A ANCAF também tem de assumir o seu papel regulador, garantindo que o calendário seja ela borado com rigor, considerando as necessidades competitivas, as condições dos estádios, a lo gística das deslocações e os compromissos internacionais das equipas. Mais do que publicar comunicados, importa criar mecanismos de fiscalização e aplicar con sequências quando as regras não são respeitadas.
Uma norma sem capacidade de execução corre o risco de ser apenas mais uma declaração de boas intenções. O Girabola precisa de crescer, de mais visibilidade, melhores transmissões, maior valoriza ção comercial e estádios com adeptos. Mas esse crescimento exige uma mudança de mentalidade.
Os clubes têm de perceber que participar numa Liga profissional implica também assumir responsabilidades institucionais e comerciais. Mas há uma questão que a ANCAF, os clubes e os responsáveis pelo futebol angolano não podem ignorar: de que vale organizar melhor as transmissões se não conseguirmos garantir a qualidade daquilo que vamos transmitir? O Girabola já ultrapassou as fronteiras nacionais através da televisão, os jogos são acompa nhados por telespectadores dentro e fora de Angola.
Isso significa que cada transmissão é também um cartão-de-visita do nosso futebol, dos nossos estádios e da capacidade organi zativa do país. E aqui entramos num problema sério: a qualidade dos estádios. Não podemos falar de profissionalização quando alguns estádios apresentam relvados degra dados, irregulares e sem condições adequadas para a prática de futebol de alto rendimento.
A relva não é um elemento decorativo de um estádio, é um factor fundamental para a quali dade do espectáculo, a segurança dos jogadores e a valorização da competição. Um relvado em más condições condiciona a circulação da bola, prejudica a qualidade técni ca dos jogadores, aumenta o risco de lesões e transforma muitos jogos numa batalha contra o terreno, em vez de uma disputa de futebol.
Mais grave ainda, as imagens dessas condições chegam ao exterior. Um potencial patrocina dor, investidor ou parceiro televisivo não avalia apenas a qualidade dos jogadores, mas tam bém observa o cenário onde o espectáculo acontece.
É preciso, por isso, que a ANCAF alargue o debate. A disciplina no cumprimento do calendário deve caminhar lado a lado com a exigência de con dições mínimas nos estádios. Não basta estabelecer prazos para mudar jogos, é igualmente necessário estabelecer crité rios rigorosos para a qualidade dos recintos desportivos, com fiscalização regular e conse quências para quem não cumprir.
A responsabilidade também pertence aos clubes, às entidades gestoras dos estádios e aos organismos públicos que tutelam estas infra-estruturas. O Girabola precisa de organização, bons relvados, transmissões de qualidade, horários respeitados e clubes financeiramente bem dotados.








