ISAAC NATANIEL CAILA ARAÚJO
Ultimamente, cresce, dia após dia, uma estranha vocação nacional: a de aplaudir aquilo que não merece aplauso. Multiplicam-se as distinções, os prémios e as homenagens e, sem sombra de dúvidas, com eles dilui-se o próprio sentido de mérito. Já não se celebra o que foi feito, mas o simples facto de existir; já não se distingue o esforço, mas a exposição.
Ora, há prémios para tudo e para todos e, por isso, paradoxalmente, o prémio deixou de significar alguma coisa. Há qualquer coisa de trágico nesta inflação de aplausos, na famosa «sociedade do espectáculo». Numa sociedade saudável, o reconhecimento é escasso porque o mérito também o é: distingue se quem se distinguiu, recompensa-se quem contribuiu.
No entanto, quando se aplaude por hábito, por conveniência ou por mero preenchimento de agenda, o gesto esvazia-se e o que fica é uma coreografia de elogios mútuos, uma espécie de cortesia institucional que já não exige nada a ninguém.
O resultado é previsível: a mediocridade instala-se, confortável, servida à mesa como se fosse excelência. A futilidade veste-se de acontecimento. A banalidade, devidamente fotografada e partilhada, converte-se em feito. Entretanto, o verdadeiro mé rito, discreto, exigente e muitas vezes silencioso, vê-se ultrapassado por quem melhor domina a arte de ocupar o centro das atenções.
Não se trata de inveja nem de saudosismo por um passado idealizado. Trata-se, antes, de per guntar: que sociedade estamos a construir quando o critério do reconhecimento deixa de ser o contributo e passa a ser a visibilidade? O supérfluo passa a ser contemplado nesta «modernidade líquida», como sublinharia Bauman.
Quando se premeia quem pouco ou nada fez, ensina se a quem observa, sobretudo aos mais novos, que o esforço é dispensável e que o essencial é aparecer, como se diz à guisa mwangolé, «mana Madó». Talvez valesse a pena travar esta corrida ao aplauso fácil. Reservar o reconhecimento para quem verdadeiramente o merece.
De volver ao mérito o seu lugar, não como recompensa automática, mas como reconhecimento raro, conquistado a pulso por quem faz mais do que fala.







