JACINTO FIGUEIREDO
*Jornalista e Professor
(A memória histórica dos conflitos pós-eleitorais em Angola narrada na primeira pessoa)
Novembro de 1992, o ambiente sócio-político na província do Uíge traduzia o colapso do processo de paz iniciado com os Acordos de Bicesse. O reacender do conflito armado no rescaldo das primeiras eleições gerais angolanas impôs um dilema existencial às famílias urbanas.
Cinco dias antes do eclodir definitivo dos confrontos violentos no centro urbano, Manuel Figueiredo adotou a de cisão mais assertiva da sua vida para defender a família, ordenando que deixássemos tudo para trás e seguíssemos rumo à aldeia Matuta, a cerca de 21 quilómetros da cidade do Uíge.
A travessia familiar iniciou se no bairro Candombe-Velho, mobilizando o patriarca Manuel Figueiredo, a matriarca Maria Gita Figueiredo, os filhos Augusto e a caçula Suzana Vuanguica Figueiredo, além dos netos Makuntima Figueiredo e Claudia Kiteque. A marcha de 21 quilómetros pela mata adentro exigiu um esforço físico extenuante, especialmente para as crianças.
O percurso delineou-se através de uma rota física e ecológica marcada pela travessia das aldeias Tomessa e Catuhula, ultrapassando os rios Loé e Kancungo, passando pela aldeia Mbabi e atravessando a ponte sobre o rio Mbassassa até alcançar o destino final.
Por volta das 17h40, o grupo alcançou a aldeia Matuta, fixando residência na única habitação de construção definitiva do povoado, erguida pelo patriarca no ano de 1979. Em gesto de acolhimento e boas-vindas, recebemos a visita das tias Ana Sango, Dina e Joaquina Diniz, todas irmãs do meu faleci do pai, que trouxeram mandioca, fubá, feijão, kizaca e bombom em pequenas banheiras (kakindas).
Foi a partir daquele momento que percebi que tínhamos ficado muito distantes da nossa realidade da cidade, longe da escola, dos colegas e vizinhos, pois a guerra obrigou-nos a adaptar ao novo normal da aldeia. Na propriedade, a convivência intercultural manifestava-se com a presença de Júlio Kavitúlho, cidadão oriundo da região Sul de Angola, que residia no anexo da casa grande e cuidava das lavras do meu pai.







