LUTINA SANTOS
A escola sempre foi vista como um espaço de formação integral do ser humano. É nela onde se transmitem conhecimentos científicos, mas também valores, princípios, hábitos e normas de convivência social.
Educar nunca significou apenas ensinar a ler, escrever ou resolver equações. Educar é, igualmente, preparar cidadãos responsáveis, respeitadores e conscientes do papel que desempenham na sociedade. Entretanto, tem-se assistido, sobretudo em algumas instituições privadas de ensino, a uma preocupante flexibilização das normas de apresentação pessoal.
O que antes era considerado inadequado para um ambiente escolar vai sendo, aos poucos, tratado como algo normal. Vestimentas excessivamente curtas, transparentes, provocantes ou incompatíveis com o contexto académico passam diante dos olhos das direcções escolares sem qualquer chamada de atenção.
Em muitos casos, a única preocupação parece ser garantir que a propina seja paga no fim do mês. Naturalmente, esta reflexão não pretende defender o controlo excessivo sobre a forma de vestir das pessoas, nem muito menos limitar a liberdade individual. Contudo, toda liberdade encontra limites quando se vive em sociedade e, sobretudo, quando se trata de uma instituição que tem como missão educar.
A escola não é uma discoteca, uma praia ou um desfile de moda. É um ambiente de aprendizagem, onde se exige um mínimo de sobriedade, respeito e decoro. Em Angola, muitas escolas privadas nasceram com a promessa de oferecer ensino de qualidade, disciplina e excelência. Porém, algumas delas parecem ter invertido as prioridades.
A disciplina passou para segundo plano, enquanto o interesse financeiro ganhou protagonismo. O aluno deixou de ser visto ape nas como educando e passou, em certos casos, a ser encarado como cliente.
E quando o aluno é tratado apenas como cliente, surge uma lógica perigosa: “quem paga pode tudo”. Esta mentalidade enfraquece a autoridade da escola e compromete a sua função educativa. É evidente que nenhuma instituição sobrevive sem recursos financeiros. As propinas são essenciais para pagar professores, funcionários, infra-estruturas e demais despesas.
No entanto, o dinheiro nunca pode ocupar o lugar dos princípios. Uma escola que sacrifica os seus regulamentos para não perder um aluno está, na verdade, a perder muito mais do que uma mensalidade: perde credibilidade, autoridade moral e identidade institucional.
O problema torna-se ainda mais grave quando alguns encarre gados de educação interpretam qualquer chamada de atenção como perseguição aos seus filhos. Em vez de apoiarem a escola na formação moral dos educandos, pressionam a direcção para que esta ignore comporta mentos inadequados.
O resulta do é um ambiente onde as normas existem apenas no papel, mas deixam de ser aplicadas na prática. A educação é uma responsabilidade partilhada entre a família e a escola. Quando uma destas instituições falha, toda a socie dade sofre as consequências. Jovens habituados à ausência de limites terão maiores dificuldades em respeitar regras no mercado de trabalho, nas instituições públicas e na vida em comunidade.
Importa também esclarecer que o debate sobre a indumentária escolar não deve ser confundido com preconceito, discriminação ou conservadorismo. A questão central não é a moda, mas sim a adequação. Cada ambiente possui as suas exigências. Tal como um profissional não comparece ao tribunal, ao hospital ou ao quartel vestido de qualquer maneira, também o espaço escolar merece uma apresentação com patível com a sua natureza educativa.
As escolas privadas, por serem instituições de ensino, devem ter coragem para fazer cumprir os seus regulamentos internos. Se existe um código de vestuário, ele deve ser aplicado com equilíbrio, respeito e imparcialidade, sem favoritismos nem receio de perder alunos. Educar implica, muitas vezes, dizer “não”. E esse “não”, quando fundamenta do em princípios, também educa.
Quando uma escola fecha os olhos diante daquilo que com promete o ambiente educativo apenas para garantir receitas financeiras, corre o risco de trans formar-se num simples estabelecimento comercial. Deixa de ser um espaço de formação para se tornar apenas um local de cobrança de propinas. No fim de contas, a pergunta permanece: o que é mais importante, a propina do aluno ou a preservação da moral? A resposta deveria ser evidente.
O dinheiro mantém as portas da escola abertas, mas são os valores que lhe dão verdadeiro sentido. Uma instituição que abdica dos seus princípios em troca de receitas pode até equilibrar as contas bancá rias, mas dificilmente consegui rá cumprir a sua mais nobre missão: formar cidadãos íntegros para o futuro.







