Há alguns meses, recebi umas imagens de caixas de legumes e outros produtos agrícolas, com uma marca, inclusive, de um amigo. É uma fotografia normalíssima em situações diárias, mas aquela tinha algo de especial no fundo. É que os produtos, que já entram para as prateleiras dos supermercados e outros estabelecimentos no Cunene e arredores, tinham saído do perímetro do Cafu. Para muitos, o nome Cafu, nos dias que correm, pode não significar nada.
Mas quem viveu intensamente as secas que assolaram o Cunene, há alguns anos, sabe, certamente, da tragédia que esta crise ambiental criou para milhares de cidadãos na referida província. Centenas de cidadãos viram os seus filhos, mães, pais e irmãos a perderem a vida por falta de água e comida, do mesmo modo que viam padecer milhares de cabeças de gado. Muitas das que foram levadas para a transumância noutros locais acabaram por ficar reduzidas a um número ínfimo, apesar deste esforço empreendido.
Ao longo dos anos, por mais que me esforce, mantenho na memória a imagem de uma criança que bebia da mesma água numa chimpaca que o gado sedento. O cenário hoje é outro. O Cunene deixou aos poucos de ser a terra seca em que a falta de chuva significava dor e miséria.
Os seus populares se vão reerguendo, inclusive produzindo centenas de toneladas de alimentos que abastecem o mercado local e, quiçá, outros na região. Recentemente, numa entrevista concedida a este jornal, uma anciã lamentava a falta dos seus filhos, enquanto se mostrava satisfeita com os frutos que o Canal do Cafu já dava, depois da aposta feita pelo Presidente João Lourenço, enquanto Titular do Poder Executivo.
Hoje, Angola alberga a realização de mais uma Bienal da Paz. E a água, um bem precioso, estará no centro de análise, porque, nos últimos tempos, vai-se tornando escassa e numa fonte de conflito entre nações no mundo. E Angola, enquanto anfitriã, tem exemplos que hoje evidenciam que, quando um Executivo se mostra preocupado, é capaz de mitigar as carências que anteriormente eram sinónimo de sacrifício, fome e pobreza.
Nos últimos tempos, só o Programa de Combate aos Efeitos da Seca no Sul de Angola consumiu mais de 700 milhões de dólares norte-americanos. E os resultados estão à vista, com as entradas em funcionamento do Canal do Cafu e das barragens do Ndu e Calucuve no Cunene. E outros estão em curso, num plano que poderá absorver mais de 4,2 mil milhões de dólares.
De terras áridas, sem quaisquer esperanças de produção em grande escala, os cidadãos destas localidades passaram a ter água farta para beberem, cultivarem e para a agropecuária. E o exemplo de Angola poderá, sim, servir de montra para outros países que atravessam situações semelhantes ou até piores, tendo em conta as mudanças climáticas.







